Rainer Maria Rilke

 

(1875-1926)

 



EXERCÍCIO AO PIANO



Zumbe o verão. A tarde pesa em tudo.
Ela acode as vestes, indecisa,
e começa a tocar o grave Estudo,
ansiosa por algo que se realiza

amanhã, ou mais tarde, ou que talvez
já aconteceu e ninguém soube o fim:
ante a janela, por primeira vez,
ela adivinha as manhas do jardim

e para, cruza as mãos, espraia o olhar
sem rumo... o seu desejo se resume
num livro. Irritada, afasta um perfume
de jasmins - que a parece perturbar.




OS ANJOS



Têm as bocas afadigadas
e as almas brancas, sem costura;
pecam por coisas desejadas
que enchem seus sonhos de amargura.

Sósias p custa diferenciá-los,
quietos, pelos jardins de Deus,
quais muitos, muitos intervalos
na intensa música dos céus.

Só quando suas asas vão
abrindo, um vento leve nasce:
como se Deus, com sua mão
de escultor, larga, então folheasse
o escuro livro da Criação.




A SOLIDÃO



A solidão é como chuva.

Sobe do mar nas tardes em declínio;
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio,
para cair do céu sobre a cidade.

Goteja na hora dúbia, quando os becos
anseiam longamente pela aurora,
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora;
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando
a solidão com os rios vai passando...

 

Música: angels_of_god.mid

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