Edgar Allan Poe

 

(1809 -1848)

 



O Vale da Inquietude

Dantes, silente vale sorria.
Era um vale onde ninguém vivia.
Haviam todos partido em guerra,
deixando os doces olhos de estrelas
noturnamente velarem pelas
flores formosas daquela terra,
em cujos braços, dia após dia,
a luz vermelha do sol dormia.
Não há viajante que, hoje, não fale
sobre a inquietude do triste vale.
Lá, agora, tudo é só movimento,
exceto os ares, pesando, adustos,
nas soledades de encantamento.
Ah! nenhum vento move os arbustos
que vibram como as ondas geladas
em torno às Hébridas enevoadas!
Ah! nenhum vento essas nuvens guia,
murmurejantes, nos céus insanos,
e que se arrastam, por todo o dia,
sobre violetas, que alguém diria
serem milhares de olhos humanos,
e sobre lírios, de haste pendida,
chorando em tumba desconhecida,
tremendo; e sempre caem, com o perfume,
gotas de orvalho do flóreo cume,
chorando; e desce, nas hastes frias,
um pranto eterno de pedrarias.

*Tradução: Oscar Mendes e Milton Amado*





Espíritos dos Mortos

Tua alma se verá solitária
No cismar da paz tumulária;
Ninguém, do vulgo todo, espia
Tua hora de absorta calmaria.

Aquieta-te em tal reclusão,
Que não é solidão – pois aí
O mesmo fantasmal cordão,
Em vida fronteado a ti,
Volta a espreitar-te na morte
E seu ímpeto irá sombrejar-te.

Da noite, franzir-se-á o véu,
Nenhuma estrela, na pujança
Dos altos sólios dentre o Céu,
Réstias traz à mortal esperança;
E seus rubros círios sem lume
– Como tua fadiga presume –
Penduram, em tua carcaça,
A ardente chaga da desgraça.

Convém cultivar pensamentos,
Convém relembrar teus momentos;
Ou eles de tua alma secarão
Tal qual o orvalho rente ao chão.

Não há brisa – alento divinal;
Cinge o monte bruma espectral
Prenhe de sombras, e estagnada,
Do abandono prova acabada,
Envolve os ciprestes cimérios
Como um mistério de mistérios!

*Tradução: Cid Vale Ferreira*




O Corvo

Resmungava adormecido, no meio da noite, mal dormindo,
Apoiado em volumes de coleções esquecidas demais -
Veio o som, quase um murmúrio, de repente um baque surdo,
Era como se alguém sutilmente arranhasse os meus portais.
“Não deve ser nada”, murmurei, “mas algo bate em meus portais -
Apenas isso, ou pouco mais”.

Não me esqueço; era no frio de dezembro,
E pelo chão o fogo agonizante desenhava sombras supulcrais.
Vivamente eu desejava a aurora, e em vão esperava ir embora
Em meus livros buscava o lamento - lamento pela perdida Lenora -
Rara e radiante donzela que os anjos chamam de Lenora -
Aqui sem nome, mais e mais.

Repentinamente, o melancólico sussurrar da cortina púrpura
Apavorou-me - encheu-me de terrores que sentira jamais;
Venci o medo, e para acalmar as batidas do coração, repeti:
“Este visitante noturno só deseja entrar por meus portais -
Nada além de um visitante noturno tentando atravessar meus portais
Só isso; nada demais”.

Num momento minha alma ficou forte; então endireitei meu porte:
“Ei, senhor”, disse eu, “ou senhora; peço que me perdoe;
Você entende: eu cochilava, e assim de mansinho ouvi a aldrava,
E tão sutilmente veio você batendo, batendo em meus portais,
Raramente alguém mais ouviria” - então escancarei os portais; -
Escuridão eu vi, e nada mais.

Rompi a impenetrável escuridão, e ali fiquei, imaginando, temendo,
Ainda eu duvidava, sonhava sonhos que mortal nenhum sonhou jamais;
Veio o som para quebrar o silêncio; a quietude num momento tenso,
E uma única palavra ali foi dita, foi uma só palavra sussurrada: “Lenora”!
Num só sussurro, ouvi o eco murmurar a mesma palavra: “Lenora!” -
Apenas isso e nada mais.

Numa meia volta eu estava em casa, minha alma me atormentava,
E novamente ouvi batidas, um som mais alto - alto demais.
“Vai ver”, disse eu, “vai ver tem algo agora na minha janela;
Eu verei, então, de que se trata, e o mistério esclarecerei -
Recupero o meu controle, e o mistério esclarecerei; -
É só o vento, soprando mais”.

Rasguei o ar até a janela, escancarei-a e encarei a fera,
Ali estava altivo o Corvo, de dias santos ancestrais.
Voou sem notar minha presença; em nenhum minuto fez anuência,
E num porte de cavalheiro ou senhora, empoleirou-se em meus portais -
Ninho fez sobre o busto de Palas, logo acima dos meus umbrais -
Empoleirou-se, quieto, e nada mais.

Num momento, o pássaro de ébano me fez sorrir de minhas amarguras,
Era estranho seu grave decoro e compostura, sua mesura,
“Visto que sua crista tem corte tortuoso”, disse eu, “certamente é impetuoso,
Enegrecido e envelhecido Corvo errando pelas trevas noturnas -
Responda-me: qual nome é o seu, nas trevas noturnas de Plutão?”
Disse o Corvo: “Nunca mais”.

Resplandeci e maravilhei-me ao ouvir a deselegante ave falar tão claramente,
Apesar do pouco significado da resposta - não achei nada demais;
Você deve concordar comigo: nunca tive nenhum amigo
Em algum momento que tenha visto um pássaro sobre seus portais -
Nem pássaros, ou animais, sobre o busto esculpido acima de seus umbrais,
Com tal nome: “Nunca mais”.

Negro, o Corvo, sentado só sobre o plácido busto, falou apenas
Esta palavra, como se sua alma nesta única palavra vivesse mais.
Vulto negro, não deu um pio; nem mesmo uma pena dele caiu -
Então eu parcamente murmurei: “De meus outros amigos não ouço mais -
Rompendo a manhã, também irás, como minha esperança já mais não há”.
Então disse o pássaro: “Nunca mais”.

Repliquei ao silêncio rompido por resposta tão habilmente dita:
“Aposto que”, disse eu, “o que diz são apenas palavras que ouviu demais,
Vindas de algum mestre infeliz cuja desesperada Desgraça
Encaminhou-se rápida e mais rápida, até tornarem-se abismais -
Num bordão de sua Esperança que a melancolia deu sinais
Deste ‘Nunca, nunca mais’”.

Neste instante, o Corvo ainda fazia-me sorrir de toda a amargura,
E arrastei um assento diante do pássaro no busto sobre os portais;
Veio então, sob a carícia do veludo, meus pensamentos desnudos
E de fantasia em fantasia, fiquei a encarar este pássaro dos dias finais -
Responda-me, agourento, desagradável e lúgubre pássaro dos dias finais:
O que quer dizer ao grasnar: “Nunca mais”?

Recostei-me mergulhado em pensamentos, mas sem expressá-los no momento
Ao pássaro cujos olhos penetrantes queimavam o meu peito mais e mais;
Vindo e indo, isto e mais eu admirava, enquanto minha cabeça eu reclinava
Encostado no veludo iluminado pelo lampião de sombras desiguais
Neste veludo violeta iluminado pelo lampião de sombras desiguais
Que ela não acariciará, ah, nunca mais!

Neste instante, o ar tornou-se denso, perfumado por um invisível incenso
E um flutuante serafim passou revoando pelo assoalho agora.
“Viva!”, gritei, “então Deus finalmente enviou-me anjos para o meu descanso
E, com o repouso, o nepente das lembranças de Lenora!
Remédio; bebe este doce nepente, e esqueça sua perdida Lenora!”
Disse o Corvo: “Nunca mais”.

“Rasputim”, disse eu, “ser odiado - mesmo que profeta, pássaro ou diabo!
Aquele tentador ou tempestade que enviou-te nestas trevas abismais,
Vasta terra desolada, terra deserta e nada encantada -
E nesta casa pelo horror assombrada, - diga-me de verdade, e nada mais -
Nesta terra - há o bálsamo - diga-me - diga-me, e nada mais!”
Disse o Corvo: “Nunca mais”.

“Nostradamus”, disse eu, “ser odiado - mesmo que profeta, pássaro ou diabo!
E pelo Paraíso que paira sobre nós - pelo Deus que ambos adoramos -
Vislumbre esta alma entristecida, e diga, se lá no Édem distante,
É onde posso acalmar as saudades da donzela que os anjos chamam Lenora -
Radiante, rara e saudosa donzela que os anjos chamam Lenora”.
Disse o Corvo: “Nunca mais”.

“Relembre esta palavra como sinal de nossa despedida, pássaro maldito”, gemi -
“Anda, volte à tempestade e mergulhe nas trevas da noite de Plutão!
Vá, e não deixe pluma negra como prova das mentiras que disseste!
E apenas deixe-me à solidão sem fim! - abandone o busto acima dos umbrais!
Nada mais; retire o bico do meu peito, e levante vôo dos meus portais!”
Disse o Corvo: “Nunca mais”.

Nisto o Corvo, nunca aflito, continua sentado, ainda sentado
Empoleirado no pálido busto de Palas, logo acima dos portais;
Vi em seus olhos todo o terror de um demônio adormecido,
E a luz do lampião sobre ele projeta sombras aterradoras no assoalho;
Ressinto minha alma, sob a sombra que adormece flutuante no assoalho,
Se libertará… nunca mais!

*Tradução: Carlos Primati*

 

Música: Lo que Vendra, de Piazzola_

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