MURILO MENDES

 

(1901-1975)

 

POEMA BARROCO

Os cavalos da aurora derrubando pianos
avançam furiosamente pelas portas da noite.
dormem na penumbra antigos santos com os pés feridos,
dormem relógios e cristais de outro tempo, esqueletos de atrizes.
O poeta calça nuvens ornadas de cabeças gregas
e ajoelha-se ante a imagem de Nossa Senhora das Vitórias
enquanto os primeiros ruídos de carrocinhas de leiteiros
atravessam o céu de açucenas e bronze.

Preciso conhecer o meu sistema de artérias
e saber até que ponto me sinto limitado
pelos sonhos a galope, pelas últimas notícias de massacres,
pelo caminhar das constelações, pela coreografia dos pássaros,
pelo labirinto da esperança, pela respiração das plantas,
e pelos vagidos da criança recém-parida na maternidade.

Preciso conhecer os porões da minha miséria,
tocar fogo nas ervas que crescem pelo corpo acima,
ameaçando tapar meus olhos, meus ouvidos,
e amordaçar a indefesa e nua castidade.
É então que viro a bela imagem azul-vermelha:
apresentando-me o outro lado coberto de punhais,
Nossa Senhora das Derrotas, coroada de goivos,
aponta seu coração e também pede auxílio.



Corte Transversal do Poema

A música do espaço pára, a noite se divide em dois pedaços.
Uma menina grande, morena, que andava na minha cabeça,
fica com um braço de fora.

Alguém anda a construir uma escada pros meus sonhos.
Um anjo cinzento bate as asas
em torno de lâmpada.
Meu pensamento desloca uma perna,
o ouvido esquerdo do céu não ouve a queixa dos namorados.

Eu sou o olho dum marinheiro morto na Índia,
um olho andando, com duas pernas.
O sexo da vizinha espera a noite se dilatar, a força do homem.
A outra metade da noite foge do mundo, empinando os seios.
Só tenho o outro lado da energia,
me dissolvem no tempo que virá, não me lembro mais quem sou.




Morte

É doce o pensamento da morte
Quando o corpo exausto de prazer ou de dor
Sofre os seus limites.
É doce o pensamento da morte
Quando o espírito enfraquecido pela revolta
Não se aplaca nem mesmo em Jesus.
Morte, suave música da morte,
Devolve-me ao sono inicial antes do pecado.

Não quero os cantos celestes nem a palma da glória.
Talvez eu queira o nada absoluto:
(Até mesmo o pensamento da morte ainda é vida.)

(Tambores da eternidade,
Substância da esperança,
Ó vida rasgada

Entre dois goles de delírios.)

Morte, apetite de ressurreição, grande insônia.

 

Música: Paradise, com Vangelis

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