JORGE DE LIMA

 

(1893-1953)

 

 

SONETO

Nem as boninas e outras flores nem
a mais humilde relva, nem os ventos,
nada participava da quietude
absoluta, absoluta, eternamente

absoluta daquela pedra de
tumba, compacta, lisa, desprezada.
Nem ninguém se lembrava da criatura
e de seus sofrimentos e de sua

atormentada vida ali deixada.
Nem tristeza talvez nem alegria,
não mais perpassam sobre a sua face

Parada, indiferente mesmo à morte
que ela encerrou em treva, e esquecimento,
e o próprio esquecimento abandonou.





CANTIGAS

As cantigas lavam a roupa das lavadeiras.
As cantigas são tão bonitas, que as lavadeiras
ficam tão tristes, tão pensativas!

As cantigas tangem os bois dos boiadeiros!
Os bois são morosos, a carga é tão grande!
0 caminho é tão comprido que não tem fim.
As cantigas são leves...
E as cantigas levam os bois, batem a roupa
das lavadeiras.

As almas negras pesam tanto, são
tão sujas como a roupa, tão pesadas
como os bois...
As cantigas são tão boas...
Lavam as almas dos pecadores!
Levam as almas dos pecadores!

 

Música: ernestocortazarpiano.wav

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