Hilda   Hilst

 

(1930-2004)

 

"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."



“ Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia –
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- é lua nova –
e revestida de luz te volto a ver.”





Devo viver entre os homens
Se sou mais pêlo, mais dor
Menos garra e menos carne humana ?
E não tendo armadura
E tendo quase muito de cordeiro
E quase nada da mão que empunha a faca
Devo continuar a caminhada ?

Devo continuar a te dizer palavras
Se a poesia apodrece
Entre as ruínas da CASA que é a tua alma ?
Ai, luz que permanece no meu corpo e cara:
Como foi que desaprendi de ser humana?





.I.
Vi as éguas da noite galopando entre as vinhas
E buscando meus sonhos. Eram soberbas, altas.
Algumas tinham manchas azuladas
E o dorso reluzia igual à noite
E as manhãs morriam
Debaixo de suas patas encarnadas.

Vi-as sorvendo as uvas que pendiam
e os beiços eram negros e orvalhados
uníssonas, resfolegavam.

Vi as éguas da noite entre os escombros
Da paisagem que fui. Vi sombras, elfos e ciladas
Laços de pedra e palha entre as alfombras
E vasto, um poço engolindo meu nome e retrato.

Vi-as tumultuadas. Intensas.
E numa delas, insone, a mim me vi.


.II.
Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível ?

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível ?
o toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis ?
Como te amar, sem nunca merecer ?

.III.
Vem dos vales a voz. Do poço.
Dos penhascos. Vem funda e fria.
Amolecida e terna, anêmonas que vi:
Corfu. No mar Egeu. Em Creta.
Vem revestida às vezes de asperezas.
Vem com brilhos de dor e madrepérola.
Mas ressoa cruel e abjeta
Se me proponho ouvir. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos, vem dos ressentimentos.
E sibilante e lisa
Se faz paixão, serpente e nos habita.

.IV.
Dirás que sonho o dementado sonho de um poeta
Se digo que me vi em outras vidas
Entre claustros, pássaros, de marfim uns barcos?
Dirás que sonho uma rainha persa
Se digo que me vi dolente e inaudita
Entre amoras negras, nêsperas, sempre-vivas ?
Mas não. Alguém gritava: acorda, acorda VIDA.
E se te digo que estavas ao meu lado
E eloqüente e amante e de palavras ávido.
Dirás que menti ? Mas não. Alguém gritava:
Palavras ... apenas sons e areias. Acorda
Acorda vida.


.V.
Águas. Onde só os tigres mitigam a sua sede.
Também eu em ti, feroz, encantoada
Atravessei as cercaduras raras
E me fiz máscaras, mulher e conjetura.
Águas que não bebi. Crepusculares. Cavas.
Códigos que decifrei e onde me vi mil vezes
Inconexa, parca. Ah, toma-me de novo
Antiquíssima, nova. Como se fosses o tigre
A beber daquelas águas.

.VI.
O que é a carne ? o que é este Isso
que recobre o osso
este novelo liso e convulso
esta desordem de prazer e atrito
este caos de dor sobre o pastoso.
A carne. Não sei este Isso.
O que é o osso ? Este viço luzente
Desejoso de envoltório e terra.
Luzidio rosto.
Ossos. Carne. Dois Issos sem nome.

.VII.
Dunas e cabras. E minha alma voltada
Para o fosco profundo da Tua cara
Passeio meu caminho de pedra, leite e pêlo.
Sou isto: um alguém-nada que te busca.
Um casco. Um cheiro. Esvazia-me de perguntas.
De roteiro. Que eu apenas suba.

.VIII.
costuro o infinito sobre o peito
e no entanto sou água fugidia e amarga
e sou crível e antiga como aquilo que vês:
pedras, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível.
Costuro o infinito sobre o peito.
Como aqueles que amam.

.IX.
Penso linhos e ungüentos
Para o coração machucado de Tempo.
Penso bilhas e pátios
Pela comoção de contemplá-los
( e de te ver ali
à luz da geometria de teus atos.)
Penso-te
Pensando-me em agonia. E não estou.
Estou apenas densa.
Recolhendo aroma, passo
O refulgente de ti que me restou.

.X.
Que te demores,que me persigas
Como alguns perseguem as tulipas
Para prover o esquecimento de si.

Que te demores
Cobrindo-me de sumos e tintas
Na minha noite de fomes
Reflete-me. Sou teu destino e poente.
Dorme.

Música: Sweet Symphony, de The Verve

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