HAROLDO  DE  CAMPOS

 

(19/08/1929-16/08/2003)

 

 

circum-lóquio
(pur troppo non allegro)
sobre o neoliberalismo
terceiro-mundista

Haroldo de Campos*

 

 

 

 

     

    laisser faire laisser passer

      1.
    o neoliberal
    neolibera:
    de tanto neoliberar
    o neoliberal
    neolibera-se de neoliberar
    tudo aquilo que não seja neo (leo)
    libérrimo:
    o livre quinhão do leão
    neolibera a corvéia da ovelha

       2.

    o neoliberal
    neolibera
    o que neoliberar
    para os não-neoliberados:
    o labéu?
    o libelo?
    a libré do lacaio?
    a argola do galé?
    o ventre-livre?
    a bóia-rala?
    o prato raso?
    a comunhão do atraso?
    a ex-comunhão dos ex-clusos?
    o amanhã sem fé?
    o café requentado?
    a queda em parafuso?
    o pé de chinelo?
    o pé no chão?
    o bicho de pé?
    a ração da ralé?

       3.
    no céu neon
    do neoliberal
    anjos-yuppies
    bochechas cor-de-bife
    privatizam
    a rosácea do paraíso
    de dante
    enquanto lancham
    fast-food
    e super
    (visionários) visam
    com olho magnânimo
    as bandas
    (flutuantes)
    do câmbio:

    enquanto o não
    - neoliberado
    come pão
    com salame
    (quando come)
    ele dorme
    sonhando
    com torneiras de ouro
    e a hidrobanheira cor
    de âmbar
    de sua neo-
    mansão em miami

         4.

    o centro e a direita
    (des)conversam
    sobre o social
    (questão de polícia):
    o desemprego um mal
    conjuntural
    (conjetural)
    pois no céu da estatís-
    tica o futuro
    se decide pela lei
    dos grandes números

       5.
    o neoliberal
    sonha um mundo higiênico:

    um ecúmeno de ecônomos
    de economistas e atuários
    de jogadores na bolsa
    de gerentes
    de supermercado
    de capitães de indústria
    e latifundários de
    banqueiros
    - banquiplenos ou
    banquirrotos
    (que importa?
    dede que circule
    autoregulante
    o necessário
    plusvalioso
    numerário)
    um mundo executivo
    de mega-empresários
    duros e puros
    mós sem dó
    mais atento ao lucro
    que ao salário
    solitários (no câncer)
    antes que solidários:
    um mundo onde deus
    não jogue dados
    e onde tudo dure para sempre
    e sempremente nada mude
    um confortável
    estável
    confiável
    mundo contábil.

       6.
    (a
    contramundo
    o mundo-não
    -mundo cão-
    dos deserdados:
    o anti-higiênico
    gueto dos
    sem-saída
    dos excluídos pelo
    deus-sistema
    cana esmagada
    pela moenda
    pela roda dentada
    dos enjeitados:
    um mundo-pêsames
    de pequenos
    cidadãos-menos
    de gente-gado
    de civis
    sub-servis

    de povo-ônus
    que não tem lugar marcado

    no campo do possível
    da economia de mercado

    (onde mercúrio serve ao deus mamonas)

       7.
    o neoliberal
    sonha um admirável
    mundo fixo
    de argentários e multinacionais
    terratenentes terrapotentes coronéis políticos
    milenaristas (cooptados) do perpétuo
    status quo:
    um mundo privé
    palácio de cristal
    à prova de balas:
    bunker blau
    durando para sempre - festa estática
    (ainda que sustente sobre fictas
    palafitas
    e estas sobre uma lata
    de lixo)

     

     

     

    no 
            
                 â     mago   do   ô     mega 
                                     um olho 
                                     um ouro                                                  
                                     um osso 
    sob 
               essa     pe(  vide de vácuo) nsil 
               pétala  p a r p a d e a n d o   cilios 
                            pálpebra 
                amêndoa         do vazio pecíolo: a coisa 
                  
    da coisa 
                da coisa 
     

                                       um duro 
                                tão oco 
                                um osso 
                                tão centro 

                                                        um corpo 
                                    cristalino         a corpo 
                                     fechado em seu alvor     

    Z

    ero 
         ao 
    ênit

                                     nitescendo ex-nihilo    
     Haroldo de Campos, 1962

 

 

 

Música: mask_frame_alien.mid

 

 

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