Guimarães Rosa

 


(1908-1967)

 

Eu estava ali, cheio de mente



Eu estava ali, cheio de mente,
Nas margens do meu mar de morte,
morada de ninguém; apenas minha?
em meio de muito pranto.
sei: agudos os ossos da alma
e toda beleza é distante.
Só o túmulo obedece.
todo ídolo é tentativa de deter o tempo.

(nem o ar é meu, nem
o que é meu. E o relato
que é meu, do chão
do mar.)

eu morro de terrível autenticidade!

Não! que
ou ainda não sou! Que
eu ainda não sou saudade...

Senhora, sinto-vos: o
choque angélico.
Saudade - as modulações do escuro;
as
falenas de além-fogo, e
uma nudez de espada:
a ardente neutralidade de um anjo.

(in Ave Palavra)



Consciência Cósmica

Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força de dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir , se me retasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...



Luar


De brejo em brejo,
os sapos avisam:
-A lua surgiu!...

No alto da noite as estrelinhas piscam,
puxando fios,
e dançam nos fios
cachos de poetas.

A lua madura
Rola,desprendida,
por entre os musgos
das nuvens brancas...
Quem a colheu,
quem a arrancou
do caule longo
da via-láctea?...

Desliza solta...

Se lhe estenderes
tuas mãos brancas,
ela cairá...

 

Música: Bachianas5.mid

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