Guilherme de Almeida


(1890-1969)

 



Essa que eu hei de amar

Essa que eu hei de amar perdidamente um dia,
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a esta alma escura e fria.

E, quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela...
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz... -- Tudo isso eu me dizia,

quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste...

E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!"




Soneto V

Umas vezes me tenho por perdido,
outras, inda me dou por bem parado;
cuidoso agora, agora descuidado,
aqui enlevado, ali aborrecido;
hoje ledo, amanhã arrependido;
já venturoso, já desventurado,
em um tempo confiante e desconfiado,
juntamente que atento, confundido.
Deste estado igualmente morro e vivo,
temperando a alegria coa tristeza,
e sonhando melhor quando desperto.
Porque amor, que me tem assim cativo,
é mais certo, quando é mor a incerteza,
quando é mor a certeza, é mais incerto.



Mormaço

Calor. E as ventarolas das palmeiras
e os leques das bananeiras
abanam devagar
inutilmente na luz perpendicular.
Todas as coisas são mais reais, são mais humanas:
não há borboletas azuis nem rolas líricas.
Apenas as taturanas
escorrem quase líquidas
na relva que estala como um esmalte.
E longe uma última romântica
-- uma araponga metálica -- bate
o bico de bronze na atmosfera timpânica.


 

Música: INST_yanni_beforeigo_plyjau.mid

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