FEDERICO GARCIA LORCA

 

(1898-1936)

 

ESTE É O PRÓLOGO


Deixaria neste livro toda a minha alma.
Este livro que viu as paisagens comigo
e viveu horas santas. Que pena dos livros
que nos enchem as mãos de rosas e de estrelas
e lentamente passam !
Que tristeza tão funda é olhar os retábulos
de dores e de penas que um coração levanta !
Ver passar os espectros de vida que se apagam,
ver o homem desnudo em Pégaso sem asas,
ver a vida e a morte, a síntese do mundo,
que em espaços profundos se olham e se abraçam.
Um livro de poesias é o outono morto:
os versos são as folhas negras em terras brancas,
e a voz que os lê é o sopro do vento que lhes incute nos peitos
- entranháveis distâncias.
O poeta é uma árvore com frutos de tristeza
e com folhas murchas de chorar o que ama.
O poeta é o médium da Natureza
que explica sua grandeza por meio de palavras.
O poeta compreende todo o incompreensível
e as coisas que se odeiam, ele, amigas as chamas.
Sabe que as veredas são todas impossíveis,
e por isso de noite vai por elas com calma.
Nos livros de versos, entre rosas de sangue,
vão passando as tristes e eternas caravanas
que fizeram ao poeta quando chora nas tardes,
rodeado e cingido por seus próprios fantasmas.
Poesia é amargura, mel celeste que emana
de um favo invisível que as almas fabricam.
Poesia é o impossível feito possível.

Harpa que tem em vez de cordas
corações e chamas.
Poesia é a vida que cruzamos com ânsia,
esperando o que leva sem rumo a nossa barca.
Livros doces de versos sãos os astros que passam
pelo silêncio mudo para o reino do Nada,
escrevendo no céu suas estrofes de prata.
Oh ! que penas tão fundas e nunca remediadas,
as vozes dolorosas que os poetas cantam !
Deixaria neste livro
toda a minha alma...


*Tradução: William Agel de Melo*

 

Romance sonâmbulo


Verde que eu te quero verde.
Verde vento. Verde ramas.
O barco por sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Como a sombra na cintura,
ela sonha em sua varanda,
verde carne, tranças verdes,
Verde que eu te quero verde.
Por sob a lua cigana,
as coisas a estão olhando
sem ela poder olhá-las.
Verde que te quero verde.

Grandes estrelas de escarcha
vêm com o peixe de sombra
que abre o caminho da alva.
A figueira arranha o vento
com a lixa de suas ramas
e o monte, gato gardunho
eriça suas pitas ágrias.
mas quem virá e por onde?
Ela está em sua varanda,
verde carne, tranças verdes,
sonhando na onda amarga.

— Compadre, quero trocar
meu cavalo por sua casa,
meus arreios pelo espelho,
minha faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
já desde os portos de Cabra.
— Se eu pudera, meu amigo,
este trato se fechava.
Mas eu já não sou eu mesmo
nem esta é mais minha casa.
— Compadre, quero morrer
decentemente na cama;
de punhal, se pode ser
com os lençóis de cambrai.
Vês a ferida que tenho
desde o peito até a garganta?

—Trezentas rosas morenas
leva tua camisa branca.
Teu sangue transuda e cheira
ao redor de tua faixa.
Mas eu já não sou eu mesmo
nem esta é mais minha casa.
— Deixai-me subir ao menos
até às altas varandas;
deixai-me subir, deixai-me
até às verdes varandas!
Corrimões verdes da lua
por onde retumba a água.

Já sobem os dois compadres
até às altas varandas.
Deixando um rastro de sangue
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremulavam nos telhados
faróis de folhas de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.

Verde que eu te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
os dois compadres subiram
O longo vento deixava
na boca um raro sabor
de vel, de menta e alfavaca.
— Compadre! Dize onde está
onde está tua filha amarga?
— Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperava,
cara fresca, tranças negras,
aqui na verde varanda!

Sob o rosto da cisterna
balançava-se a cigana.
Verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Um carambano de lua
a ampara sobre a água
A noite tornou-se íntima
qual uma pequena praça,
bêbados guardas-civis,
brutais, à porta chamavam.
Verde que eu te quero verde.

Verde vento. Verdes ramas,
O barco por sobre o mar
e o cavalo na montanha.

*Tradução de Leônidas e Vicente Sobrinho Porto*

 

SE MINHAS MÃOS PUDESSEM DESFOLHAR


Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

Música: clair.mid

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