Florbela   Espanca

 


(1894-1930)
 

 


MOCIDADE

A mocidade esplêndida, vibrante,
Ardente, extraordinária, audaciosa,
Que vê num cardo a folha duma rosa,
na gota de água o brilho dum diamante;

Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelham triunfante!

no meu sangue rubis correm dispersos:
- Chamas subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus lábios a florir!

Ama-me doida, estonteadoramente,
Ó meu Amor! que o coração da gente
É tão pequeno... e a vida, água a fugir...




DIVINO INSTANTE

Ser uma pobre morta inerte e fria,
Hierática, deitada sob a terra,
Sem saber se no mundo há paz ou guerra,
Sem ver nascer, sem ver morrer o dia,

Luz apagada ao alto e que alumia,
Boca fechada à fala que não erra,
Urna de bronze que a Verdade encerra,
Ah! ser Eu essa morta inerte e fria!

Ah, fixar o efémero! Esse instante
Em que o teu beijo sôfrego de amante
Queima o meu corpo frágil de âmbar loiro;

Ah, fixar o momento em que, dolente,
tuas pálpebras descem, lentamente,
Sobre a vertigem dos teus olhos de oiro!




SOMBRA

De olheiras roxas, rosas, quasi pretas,
De olhos límpidos, doces languiscentes,
lagos em calma, pálidos, dormentes
onde se debruçam violetas...

De mãos esguias, finas hastes quietas,
Que o vento não baloiça em noites quentes...
Nocturno de Chopin... risos dolentes...
Versos tristes em sonhos de Poetas...

Beijo doce de aromas perturbantes...
Rosal bendito que dá rosas... Dantes
Estas era Eu e Eu era a idolatrada!...

Oh! tanta cinza morta... o vento a leve!
Vou sendo agora em ti a sombra leve
Dalguém que dobra a curva duma estrada...

 

Música: Vozes no Mar, com Madredeus

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