Cruz e Sousa

 


(1886 -1898)



Caveira

I
Olhos que foram olhos, dois buracos
Agora, fundos, no ondular da poeira...
Nem negros, nem azuis e nem opacos.
Caveira!

II
Nariz de linhas, correções audazes,
De expressão aquilina e feiticeira,
Onde os olfatos virginais, falazes?!
Caveira! Caveira!!

III
Boca de dentes límpidos e finos,
De curve leve, original, ligeira,
Que é feito dos teus risos cristalinos?!
Caveira! Caveira!! Caveira!!!





Fruto envelhecido


Do coração no envelhecido fruto
É só desolação e é só tortura.
O frio soluçante da amargura
Envolve o coração num fundo luto.

O fantasma da Dor pérfido e astuto
Caminha junto a toda a criatura.
A alma por mais feliz e por mais pura
Tem de sofrer o esmagamento bruto.

É preciso humildade, é necessário
Fazer do coração branco sacrário
E a hóstia elevar do Sentimento eterno.

Em tudo derramar o amor profundo,
Derramar o perdão no caos do mundo,
Sorrir ao céu e bendizer o Inferno!





Alma Ferida


Alma ferida pelas negras lanças
Da Desgraça, ferida do Destino,
Alma de que a amargura téce o hymno
Sombrio das crueis desesperanças;

Não desças, Alma feita das heranças
Da Dôr, não desças do teu céo divino.
Scintila como o espelho crystalino
Das sagradas, serenas esperanças.

Mesmo na Dôr espera com clemencia
E sóbe á sideral resplandescencia,
Longe de um mundo que só tem peçonha.

Das ruinas de tudo ergue-te pura;
E eternamente, na suprema Altura,
Suspira, soffre, scisma, sente, sonha!

Música: África, de Enya

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