Clarice Lispector
 

(1925-1977)


Dá-me a tua mão
Clarice Lispector

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

“Dá-me tua mão”, in: A Paixão segundo GH, 8. ed, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1979, p. 94.



Mas há a vida
Clarice Lispector

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.


“Mas há a Vida”, in: A Descoberta do Mundo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984, p. 539

 

Amor à Terra
Clarice Lispector

Laranja na mesa.
Bendita a árvore
que te pariu.


“Amor à Terra”, in: A Descoberta do Mundo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984, p. 302

 

Meu Deus, me dê a coragem
Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.


“Meu Deus, me dê a coragem..”, in: Um Sopro de Vida, 4. ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1978, pp. 154-155.

 

Para maiores informações, consultem os links:

http://www.secrel.com.br/jpoesia/cli.html
http://www.ligia.tomarchio.nom.br/homenagem_clarice_lispector.htm

Música: Ballade Nº1 in G Minor Op.23, by Chopin

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