Olavo  Bilac


(1865-1918)

 



A um Poeta

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma de disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.





Inocência

Como, em vez de uma paz desiludida,
Posso eu ter, nesta idade, esta confiança,
Que me leva a correr a toda brida
Na pista de uma sombra de esperança

Esta velhice ingênua me intimida:
Tanto ardor, tanta fé, que me não cansa.
E, em mais de meio século de vida,
Tanta credulidade de criança!

Rio, inocente, ao sol, como uma rosa;
Ainda arquiteto mundos sobre a areia;
Anoiteço em miragem luminosa...

E ainda imagino a minha taça cheia,
E emborco-a: "Oh! Vida!...";
e quero-a, e acho-a formosa
Como se não soubesse quanto é feia!





No Limiar da Morte

Engrelhadas as faces, os cabelos
Brancos, ferido, chegas da jornada;
Revês da infância os dias; e ao revê-los,
Que fundas mágoas na alma lacerada!

Paras. Palpas a treva em torno. Os grelos
Da velhice te cercam. Vês a estrada
Negra, cheia de sombras, povoada
De astros espectros e de pesadelos...

Tu, que amaste e sofreste, agora os passos
Para o meu lado moves. Alma em prantos
Deixas os ódios do mundano inferno...

Vem! que enfim gozarás entre meus braços
Toda a volúpia, todos os encantos,
Toda a delícia do repouso eterno!

 

Música: ebbtide.mid

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