Artur da Távola

 


(1936-2008)

 

ATO DE CONTRIÇÃO
Artur da Távola

Ah, como somos comedidos!
Acomodamo-nos, vãos,
nos limites do concebido.

Somos bem educados, cultos,
e ruge tanta fome
nos apetites fora do concedido.

Ah, como somos sob medida!
sub metidos, hirtos, bem vestidos,
robôs impecáveis, ilusão de vida.

Ah, somos como os subvertidos,
introvertida soma de extrovertidos
por pompa, tinta, arroto ou brilhantina.

Filhos do instante, do entanto e do porém,
somos através, como os vidros,
mas opacos e pervertidos, sempre aquém.

Traçamos sinas e abstrações,
terçamos ódio finos, dissuadidos,
lãs de olvido e alucinações.

Sovamos os sidos, os vividos,
somos eiva, disfarce, diluição.
Somos somas a subtrações.



SERENO
Artur da Távola

Cansaço universal
a transudar sutil
o doce suor da noite funda.
Borrifo de plenilúnio,
úmida emanação de luz
em gotas do mistério abissal.

Saliva de deuses fluidos
a bendizer segredos da revelação.
Hálito distraído da noite
a ressumar a oração da natureza
pela muda voz
da madrugada.

Perdigotos do céu
ou bafo da terra
em suspiro e lassidão.
Umidade do silêncio,
noturna expectoração
do amanhecer.

Testemunho da pétala,
alma do cristal pousada
em pátena invisível.
Cio da flor,
em corolas ávidas
de umedecer gineceus.

Só ninfas e napéias
sabem-lhe o pouso encantado
e secreto
na folhaflor
onde copulam insetos e duendes
grávidos de Deus.



PELAS RUAS
Artur da Távola

Passeio-me o eu
pelas calçadas da memória
onde a decadência não chegou
e aquele rapaz amoroso e bom
ainda faz serão e vestibular
para viver a vida ou morte
mas desafiar interrogações
básicas do ser.

Passeio-me o mim
deambular fugidio
de tanta vida não vivida
exceto nas paralelas
onde o ser se revela
e faz o que não viveu
ser memória ram
oculta no computador biografia
mas impressa no cine saudade
e na pulsação esta
que agora me asfalta o peito
e povoa o estro ordinário.


Saiba mais no link:
http://www.ligia.tomarchio.nom.br/ligia_amigos_arturdatavola.htm

 

Música: Sonata Claro de Luna, by Beethoven

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