Antero de Quental

 

(1842-1891)

 

 

 Noturno



Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo - triste e lento -
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!

 




Metempsicose



Ardentes filhas do prazer, dizei-me!
Vossos sonhos quais são, depois da orgia?
Acaso nunca a imagem fugidia
do que fostes, em vós se agita e freme?

Noutra vida e outra esfera, onde geme
outro vento, e se acende um outro dia,
que corpo tínheis? Que matéria fria
vossa alma incendiou, com fogo estreme?

Vós fostes nas florestas bravas feras,
arrastando, leoas ou panteras,
de dentadas d'amor um corpo exangue...

Mordei pois esta carne palpitante,
feras feitas de gaze flutuante...
Lobas! leoas! sim, bebei meu sangue!

 




Na Sepultura Duma Criança



Feliz de quem passou por entre a mágoa
E as paixões da existência tumultuosa,
Inconsciente, como passa a rosa,
E leve como a sombra sobre a água.
Era-te a vida um sonho. Indefinido
E ténue, mas suave e transparente...
Acordaste, sorriste... e vagamente
Continuaste o sonho interrompido.
 

Música: ShepherdMoons.mid

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