A Velha Poltrona da Biblioteca

Ligi@Tomarchio®



Não me lembro há quanto tempo existo... Penso que o tempo real em nada mudaria minha essência. Sei que existo apenas. Sou uma poltrona um pouco velha, mas confortável.Todos gostam muito de descansar sobre meu assento macio. Meu nome é Maciana. Moro na Biblioteca Pública.
A Biblioteca Pública tem características aterrorizantes. Seu prédio é antigo, móveis velhos e cheios de pó, livros empilhados e solitários, devido a reforma interrompida por falta de verba da Prefeitura. Na minha humilde opinião, a falta de dinheiro é apenas uma desculpa. Pois quem dá importância a um prédio velho? Lugar de coisas antigas é no museu. Mas será que o museu é bem conservado? Talvez seja tão limpo e bem cuidado como um asilo de velhos, creio.
Quanto aos funcionários da biblioteca, possuem aspecto misterioso. Alguns muito velhos, outros com expressão de loucura. Mesmo assim, tudo funciona quase normalmente. Quase, porque só uma das salas encontra-se em condições de uso. A "Sala dos Milagres",como é chamada.
- Na "Sala dos Milagres", há uma poltrona muito especial. Antiga. Feita em veludo marrom rasgado, mas ainda muito confortável e macia. Possui dois braços acolhedores e é muito atraente. Todos disputam seu assento - é a descrição feita a meu respeito pelo Seu Anésio, um funcionário da biblioteca.
- Nomeamos essa poltrona, neste momento solene, a mais confortável de todas.Vamos chamá-la de Maciana - foi o que determinou um dos mais assíduos freqüentadores da biblioteca, há alguns anos por ocasião de uma palestra sobre objetos antigos.
Fiquei lisonjeada nesse dia. Apenas não concordei com o discurso sobre "objetos" antigos, pois não sou um simples objeto. Eu penso e converso com meus amigos. Proporciono, através da leitura, viagens fantásticas.
Há tempos, numa noite fria, observando a escuridão que tomava conta da sala e sozinha em meus devaneios, resolvi pesquisar todos aqueles que sobre mim pousam seu corpo.
No dia seguinte, lá estava eu, pronta para dar início à pesquisa. Fiquei aguardando qual seria o primeiro "objeto" a ser analisado.
Sem dúvida, será necessário falar um pouco sobre o Seu Anésio. Muito velhinho, já não enxerga bem. Com isso, qualquer um passa desapercebido pela entrada principal da biblioteca. Seu Anésio é o porteiro e quem registra o nome dos visitantes. Tem idade e tempo para se aposentar, mas não consegue deixar o trabalho, porque gosta muito da biblioteca,
dos livros e, acima de tudo, não conseguiria viver só com os vencimentos de uma aposentadoria. Um funcionário público, quando se aposenta, recebe um salário menor do que o real e perde direito a outros benefícios que só os ativos recebem. Coisa com que eu não concordo.
Bem, voltando à minha pesquisa. Dentre os freqüentadores da biblioteca, certa vez sentou-se em meu assento um garoto maltrapilho, escurinho feito carvão. Segurava nas mãos um livro muito interessante: "O caso dos dez negrinhos".
Foi, então, que lhe perguntei:
- Garoto, por que está tão assustado e ofegante? É o livro escolhido que o deixa assim?
O menino se levantou assustado. Pensei que fosse correr. Mas, não... Voltou-se. Olhou desconfiado para os lados e sentou novamente.
- Garoto! Eu falei com você. Sou a poltrona Maciana. Não tenha medo. Vamos, responda. Diga seu nome.
Novamente o menino se levantou. Dessa vez, porém, depois de olhar-me receoso, respondeu:
- Meu nome?! É... é... Boné. Eu estava na rua tentando ganhar algum e os homens correram pra me prender. O livro, eu peguei só pra disfarçar. Eu não sei ler. Gostei da capa.
- Boné, explique melhor. Que homens estavam atrás de você? O que fazia de tão errado assim?
- Maciana, eu sou um trombadinha - falou o guri, quase sussurrando. - Roubo pra sobreviver nessa cidade maldita. Os homens, é a policia. Quando eles me pegam, jogam num camburão e batem muito em mim. Depois que descarregam a raiva deles, me largam no meio do mato, em qualquer canto da cidade.
- Vamos fazer um trato, Boné! Gostei muito de você. Quero que volte sempre. Então, você procure uma escola e comece a estudar. Daí poderá entrar aqui sempre que tiver vontade. Concorda?
- Puxa, Maciana! Você é muito legal. Claro que eu volto aqui. Este parece ser o único lugar seguro e tranqüilo para se estar. Agora tenho que ir. Amanhã, voltarei para a escola, se ainda tiver vaga. Voltarei com certeza. Tchau!
-Tchau! Boné! - repondi, contente por ter convencido o menino a voltar a estudar.
Após alguns minutos, sentou um outro menino. Bem vestido, gordinho e saudável, mastigava um grande tablete de chocolate, enquanto lia o livro "História sem fim".
- Qual o seu nome, garoto?
- Meu nome é Humberto de Souza - respondeu o menino, sem tirar os olhos do que lia, já estando no meio da história.
- Humberto de Souza! É um belo nome. Mas, me explica uma coisa, qual o seu interesse por esse livro? - perguntei, curiosa.
Repentinamente, o garoto interrompeu sua leitura.
- Ora! Quem está falando comigo? - falou, um tanto espantado.
- Meu nome é Maciana. Sou a poltrona em que você se sentou - expliquei.
- Maciana! - retrucou Humberto - A senhora é muito confortável. Sentado aqui, sinto-me no "Reino de Fantasia", passando por todas as aventuras do herói da história. completou, já sossegado.
- Obrigada, Humberto.
- Sabe, Dona Maciana, eu quero ser um escritor de verdade, como o que escreveu "História sem fim ". Aliás, eu sempre gostei de ler. Na minha escola, incentivam muito os alunos a escrever. Por isso, vivo lendo. Em todo lugar. No colégio, aqui e, em casa, onde moro com meus pais. - confessou Humberto.
- Ah, sim! Gostaria que fôssemos amigos e que você voltasse sempre, para conversarmos. Garanto que não se arrependerá. Suas fantasias vão se tomar realidade, enquanto estiver sentado em mim - disse ao menino.
- Muito obrigado, Dona Maciana. Nunca vou esquecer da senhora. Pena que eu tenha de sair, porque papai já deve estar me esperando no carro, lá fora. Prometo voltar quando puder, para batermos um papo. Quanto ao livro, pedirei ao papai. Ele me compra muitos livros. Até breve! - despediu-se.
- Até breve! - respondi, contente.
É um garoto inteligente, pensei. E como é pesado! Além disso, me lambuzou toda de chocolate. Ele devia ter mais cuidado. Se todo mundo que senta em mim fizer isso, vão acabar me colocando no depósito de móveis estragados. É mesmo! Já ando meio rasgada. Agora, suja de chocolate...
A faxineira, Dona Eulália, já esteve internada num hospital para loucos e resmunga o tempo todo, sem dúvida, vai reclamar. Tenho certeza.
Não deu outra! Dona Eulália se aproximou e foi logo resmungando.
- Ai, meu Deus! Não chega eu ter que espanar todos os dias essa sala! Agora, tenho que buscar um pano com sabão pra limpar essa lambuzeira toda. Por que não levam essa poltrona velha daqui. Ela só dá trabalho! Nunca consigo deixá-la bonita. Não demora muito, vou levar uma bronca do Seu Monteiro.
- Dona Eulália! - sussurrei - Não se aborreça por tão pouco. Sente-se e descanse. Verá que vale a pena conservar e cuidar de velhos... objetos... como eu. O Seu Monteiro entrou de férias, hoje. Não se preocupe.
- Gente! Quem está falando? Acho que eu é que estou precisando de umas férias! - comentou Dona Eulália, um tanto confusa.
- Sou eu! A poltrona Maciana! Sente-se, repito. Não tenha receio. A senhora está só cansada, não é loucura não!
Dona Eulália me olhou bastante surpresa. Alguns segundos depois, não fez outra. Largou seu corpo leve sobre mim, balbuciando.
- Nunca pensei em conversar com uma poltrona. Maciana é seu nome, não é? Pois saiba. A senhora é bem gostosa pra se sentar. Acho até que vou cochilar um pouco. É verdade! Está na hora de fechar e ninguém vai mesmo entrar por aqui... Mal terminou de falar e já ressonava.
Comecei a observá-la, enquanto dormia.
É impressionante como certas pessoas têm facilidade para dormir...
Tempos depois a faxineira dormia pesado. Tive de acordá-la.
- Dona Eulália! Está na hora de ir embora!
Ela acordou assustada, mas restabelecida. Levantou-se. Olhou para mim.
- Dona Maciana, foi muito bom conhecê-la melhor - comentou. - Prometo cuidar com muito carinho da senhora. Nunca deixarei que a levem para o depósito, no porão. Claro que não!
- Obrigada, Dona Eulália. Tenha uma boa noite de descanso. Volte amanhã, para conversarmos - respondi.
Satisfeita, a faxineira acenou com o espanador e saiu da sala.
Aos poucos foi anoitecendo. A biblioteca ficou vazia, com suas portas fechadas.
Pensava em minha solidão, quando uma barata pousou em meu braço.
- Que delicia, esse chocolate! - ela comentou.
Indignada, respondi à barata:
- Escute bem, Dona Barata, eu não sou chocolate. Sou uma poltrona. A poltrona Maciana. Apenas estou suja porque a faxineira não teve tempo para me limpar.
- Desculpe, Maciana. Não pretendia ofendê-la. É que está tudo escuro e sua cor é marrom. Parece chocolate. Tem até gosto de chocolate! - explicou a barata.
- Está bem. Dessa vez eu desculpo. Espero que não venha a repetir tal engano! - falei, um tanto embaraçada com a situação.
É mesmo! Imagine só, uma barata lambendo meu braço! Essa não! Como posso permitir tal desrespeito!
Sou uma velha poltrona de uma biblioteca séria! Mas... Pensando melhor... Posso e devo observar os insetos, também. Minha pesquisa ficará mais completa. Creio que sim... E é o que vou fazer.
- Dona Barata, gostaria que soubesse. Tenho lá minhas manias. Uma delas é a curiosidade em saber como vive e pensa, uma barata, por exemplo?!
- Como eu vivo? - logo respondeu a barata. - Vivo de um lado para outro. Não tenho morada fixa. É certo que nasci nessa biblioteca, porém, saio todos os dias procurando alimento. Vou às lanchonetes, aos restaurantes, às lixeiras. Hoje, quando cheguei, achei estranho o cheiro de chocolate, na sala. Coisa rara por aqui, onde só há livros e esse odor assassino  de naftalinas!
Achei interessante o que me disse a barata. Ela, por sua vez, desapareceu imediatamente de meu braço, enquanto eu, sozinha, fiquei organizando meus pensamentos.
Algum tempo passou. Percebi que chovia. Uma goteira adentrava minhas entranhas desprotegidas pelo grande corte no veludo de minhas costas. Não me contive e reclamei.
- Goteira maldosa! Não podia pingar longe de mim?!
Delicadamente, a goteira retrucou:
- Como posso desviar meu rumo? Independe da minha vontade. São os azares da vida. A natureza e a falta de conservação determinam meu percurso.
Fiquei sem saber o que falar. A goteira tinha razão. Se ao menos pudesse mover-me... Sair de meu lugar...
Assim, conformada, aguardei passar a chuva. Infelizmente, choveu a noite toda. As gotas apunhalavam minhas costas geladas. A solidão aumentava. Lembranças vãs, melancólicas, bailavam em meus pensamentos perdidos. Acabei dormindo. Quando retomei a consciência, vi que amanhecia.
Ouvi os cantos dos pássaros, felizes com a estiagem. O sol invadia as frestas das janelas fechadas.
Já não me sentia só.
Pouco tempo passou, até que veio o porteiro, pela Sala dos Milagres adentro. Junto dele, um passarinho atrevido e assustado. Voou pela sala. Pousou. Adivinhe onde? Justamente em mim.
Antes que Seu Anésio e eu percebêssemos, o passarinho fez aquela sujeira! É sempre assim! Eu sempre vítima desses acidentes!
Muito prestativo. Seu Anésio tratou de me limpar e abriu uma das janelas, para que o pássaro se retirasse. Tão logo o pássaro se foi, agradeci.
- Estou muito grata pelo que fez, Seu Anésio! Como posso lhe retribuir?
Tranqüilamente, o velho retrucou :
- Vou lhe pedir um favor, Maciana. Há tempos não posso ler, por falta dos óculos
que estão quebrados. Gostaria de ouvir um poema desse livro... - enquanto falava, pegou um velho livro, em uma estante, e sentou-se.
Abriu o livro numa página em que havia um poema de Gonçalves Dias. Aquele que diz de passarinhos que gorjeiam, conforme comentou Seu Anésio. Eu conhecia muito bem o poema. Vagarosamente declamei seus versos.
O velhote ficou emocionado. Levantou-se feliz. Devolveu o livro à estante e agradeceu. Parecia outro homem. Mais disposto. Alegre. Foi logo abrindo todas as janelas da sala. Ajeitou algumas coisas que estavam fora de lugar e retornou à portaria.
Todos os funcionários já haviam chegado, menos o Seu Monteiro, que estava de férias.
Momentos mais tarde, um grupo de adolescentes entrou na Sala dos Milagres. Reuniam-se numa mesa, onde passaram algum tempo estudando. Notei que olhavam sempre para mim e cochichavam. Fiquei intrigada. Logo, porém, percebi que disputavam meu assento, para se esticarem nele, a fim de lerem, após os estudos.
A escolhida foi uma guria morena de olhos verdes, esguia e de corpo torneado. Pelo que pude observar, era a mais bonita do grupo e seus colegas a tratavam com um carinho todo especial.
Ao sentar-se, tinha consigo o livro, "Educação sexual para adolescentes". Muito compenetrada na leitura, nada percebeu do que se passava a sua volta. Só quando lhe falei, tempos depois, é que fechou o livro, prestando atenção em minhas palavras.
- Está gostando do livro, menina?
Intrigada, a princípio ficou me olhando. Depois, dispôs-se a me responder:
- Sim, é muito esclarecedor. Minha mãe não conversa sobre esses assuntos comigo. Acho que tem vergonha. Por isso estou lendo.
- Qual o seu nome e de seus colegas? Parecem admirar sua beleza! - comentei.
- Meu nome é Júlia. Aquele magrinho de óculos é o Marcos. O loiro é o Alexandre. O moreno é o Leôncio. A garota é minha irmã Joice. São bons amigos. Gostam de mim. Os garotos me paqueram, mas eu não consigo me decidir por nenhum deles. Acho muito cedo para namorar. Prefiro tê-los apenas como colegas, por enquanto. Já minha irmã namora um garoto mais velho. Ele tem 16 anos e ela 14. Os meninos e eu ainda temos 12. - respondeu a
menina, muito desinibida e sem dar importância ao fato de eu ser uma poltrona.
- E você? Qual é seu nome? Por que poltrona também tem nome, não
tem? - perguntou.
- Sim! Claro! Eu, por exemplo, me chamo Maciana.
- Pois eu gostei de conhecê-la, Maciana! Agora preciso ir, mas juro que volto em breve. Semana que vem. - despediu-se.
Acenando para mim, foi de encontro a seus colegas, que aguardavam por ela na porta.
Enquanto saiam, entrou Dona Eulália. Veio em minha direção. Numa das mãos, trazia o espanador. Na outra, uma flanela úmida. Acariciou-me com a flanela por algum tempo, até se convencer de que a mancha de chocolate havia saído completamente de meu braço. Passou, então, o espanador, suavemente, por todo o meu corpo. Olhando minhas costas, disse
preocupada:
- Dona Maciana, preciso colocá-la no sol. Está toda molhada e pode criar mofo. Vou chamar alguém para ajudar.
Fiquei a espera, planejando o que faria fora daquela sala de onde nunca havia saído. Logo, a faxineira e mais dois outros funcionários levaram-me para o jardim.
Depois que me acomodaram sob o sol e já sozinha comigo, Dona Eulália comentou:
- Bom proveito, Maciana. Está um dia lindo. Mais tarde venho para buscá-la.
Ali, no jardim, fiquei deslumbrada com tanta beleza que só conhecia pelos livros. Todo aquele verde das árvores. As flores tão coloridas. A variedade de pássaros. O prédio da biblioteca, imenso e judiado.
Estonteada com o ar quente e perfumado, não percebi um cão que se aproximava.
Após subir em meu assento, acomodou-se e dormiu.
Dessa vez não resmunguei. Contive-me em observá-lo. Como era leve e macio. Parecia amigável e dócil.
O cão, porém, ficou pouco tempo dormindo. Pôs-se a se coçar com as patas traseiras. Em seguida, saltou, indo embora correndo. Penso que se incomodou com as pulgas.
Logo depois, comecei a sentir, também, coceiras nos meus pés. Não compreendia. Não podiam ser pulgas. Todas foram com o cão. Só então percebi, enfileiradas, subirem na direção de meus braços, dezenas de formigas. Esforçadas, elas carregavam consigo folhas enormes.
Gostei de vê-las trabalhando...
Já se escondia o sol, quando Dona Eulália voltou com os homens, para me carregarem de volta à Sala dos Milagres. Pedi que me colocassem em outro canto, para evitar a goteira da noite anterior. Fui atendida.
Assim, deixaram-me sossegada e se foram, após terem fechado as janelas e apagado as luzes.
A noite foi tumultuada. Aquelas malditas traças surgiram de todos os lados. Senti picadas pelo corpo. Não conseguindo calar meus instintos de proteção, gritei:
- Parem, suas destruidoras sem causa. Por que não vão comer lixo ou doce, feito as baratas? Esta casa, assim como eu, temos muito valor. Fazemos parte da história de uma cidade. Os livros são um legado para os jovens dessa e de outras gerações que estão por vir. Deixem-nos em paz!
Por incrível que possa parecer, elas pararam, mas não ficaram caladas.
- Será que é você quem manda matar nossas amigas? Provavelmente, sim. Olhem quanta cânfora... Uau! Vamos deixá-la em paz, mas quanto aos outros móveis, nada podemos garantir. Somos parte da natureza. Precisamos sobreviver. E, além disso, por que não cuidam melhor das coisas aqui?
- Está bem - retruquei. Vocês têm certa razão. Fui eu que pedi à Dona Eulália para colocar cânfora e naftalinas no meu interior. Mas não depende de nós, móveis e livros, a conservação de tudo. Dependemos de políticos, de dinheiro e da boa vontade de muitos seres humanos.
As traças sequer me ouviram direito, partindo imediatamente para outra caçada, em busca de sustento.
Percalços da vida...
Não sei quantos dias se passaram. Muitas pessoas conheci e muito material colhi e organizei, em meu pensamento, das minhas pesquisas. Parecia me sentir bastante satisfeita, quando conheci Seu Antônio Silveira e tivemos um bate-papo interessante.
Ele chegou bem cedo à biblioteca. Pegou um livro de filosofia e sentou-se em mim.
Ao contrário dos outros seres humanos que eu conhecera, foi logo conversando comigo, sem que eu me apresentasse.
- Eu sou Antônio Silveira. Viúvo. Não tive filhos e não tenho nenhum parente. Moro sozinho num kit aqui no centro da cidade e preciso conversar com alguém. Mas ninguém tem tempo para mim...
Foi quando intervim, apresentando-me.
- E eu sou a poltrona Maciana. Vivo há décadas aqui. Sofro vendo tudo se deteriorando. Para passar o tempo, venho observando todos os que se sentam em mim, a fim de relatar a quem de direito ou dever se interesse por reformar esta Biblioteca Pública.
O homem me olhou, intrigado. Em seguida, falou:
- Estranho, Maciana! Penso exatamente o mesmo quanto a conservação dessa biblioteca. Nesse pais não são todos que podem comprar livros. Outros gostam ou necessitam estar nesse ambiente que, sem dúvida, é acolhedor. Além disso, existem aqui, livros que não são mais publicados. Livros raros. Os móveis, então, são ímpares. Hoje em dia, tudo é feito para durar pouco. Tudo é descartável. Os móveis daqui não. Parecem eternos. E prosseguiu:
- Veja você, Maciana, atualmente, até livros descartáveis estão sendo editados para as escolas. As crianças escrevem nos próprios livros, impedindo que seus irmãos mais novos possam utilizá-los. E as pessoas carentes, sem condições de comprar esses livros, não podem
estudar neles, já que são descartáveis. Que situação chegou nosso país!
- Realmente, Seu Antônio! - concordei. Mas o que podemos fazer nós, velhos e móveis, para mudar isso?
- Creio que nada! Só nos resta a indignação! Talvez possamos ter alguma esperança nos jovens. Claro, os jovens! Eles sim, poderão fazer alguma coisa!
- E não será fácil, Seu Antônio! - comentei.
- Sim, senhora! Muito difícil! Mas tenho esperança!
Prosseguimos em nossa conversa por mais de uma hora, até que nos despedimos.
- Dona Maciana, a conversa está muito agradável, mas preciso voltar logo para casa. Deixei lá meu gatinho e ele pode estar com fome. Até breve - disse o velhote.
- Até breve, Seu Antônio. Lembranças a seu gato.
Ontem, foi com alegria que soube, por Dona Eulália, que haviam liberado a verba para a reforma da biblioteca.
Hoje mesmo, já fecharam o prédio para as obras. E vieram os pedreiros.
Sei que vou sentir muita falta de todos os amigos que sonharam e fantasiaram comigo, nesta Sala dos Milagres. Mas, paciência, às vezes a vida se complica um tanto para que algo de melhor possa acontecer.
Em breve, a biblioteca vai ficar nova. Seus livros serão limpos e arrumados. Mais funcionários serão contratados. Há de ser bom.
Quanto a mim, não tenho lá muitas esperanças que me reformem. Provavelmente vão me jogar fora. Serei desprezada. Solitária, em algum lugar. Apodrecendo. Morrendo aos poucos. Imagino!...
Agora, observo os trabalhadores que vieram para fazer as obras. São pessoas simples. Sofridas. Levam vida difícil, no trabalho pesado. Na sua maioria, são imigrantes nordestinos. Com certeza, mal sabem ler.
Estando por aqui, talvez possa ensiná-los o que sei. E, sem dúvida, muitas coisas aprender, numa troca de experiências fantásticas. Enquanto, com a sabedoria de seus esforços e a simplicidade dos perseverantes, eles estarão levando a história dessa biblioteca.

 

Música: May it Be, by Enya

 

 

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