Pataplam, o Corcel Alado

Ligi@Tomarchio®

 

Conta lenda antiga que a bela e sábia mula Sacha precisou marchar por tempos sem fim, vindo de longínquas paragens, em Uancantam, até encontrar seu grande amado Pilibram, corcel alado, com asas de penas de cisne e crina e cauda tão compridas que se arrastavam pelo chão.
Acrescenta, também a lenda que os dois se casaram felizes, tendo logo um filho, um potro branco, alado feito o pai, de quem herdou a força, a lealdade e a beleza. Tendo herdado da mãe sua simplicidade e sabedoria.
Pataplam devotava amor eterno a Sacha. Já por Pilibram sentia não mais do que admiração. Uma espécie de orgulho por ser filho daquele que todos conheciam como o Caçador de Maldades.
Acontece, porém, que a convivência entre eles era difícil. Pilibram viajava sempre, requisitado pelos necessitados de seu combate aos malefícios. Assim, mais Pataplam só se sentia próximo de Sacha. Onde um estivesse, estava o outro.
Habitavam uma grande esplanada muito verde, calma, brilhante e morna, onde uma brisa ligeira à tarde não mais fazia do que balançar suas crinas, enquanto cavalgavam.
Numa linda manhã serena, Pataplam e Sacha pastavam, quando avistaram ao longe, perto de um riacho, um velho. Ajoelhado, o estranho ancião tinha sua cabeça mergulhada nas águas, parecendo não conseguir mais levantá-la para respirar.
A mula Sacha e seu filho seguiram até o pequeno rio, preocupados que estavam com o velho.
Lá chegando, logo Pataplam relinchou alto e forte:
- Levanta a cabeça, velho que não conheço!
Assustado, o ancião levantou-se e gritou:
- Jovem! Por que me assusta dessa maneira? Que modos são esses de se tratar um velho como eu? Como se chama você?
- Pataplam é o meu nome, senhor. Perdão se o assustei. Sou filho de Pilibram, o Caçador de Maldades. Esta é minha mãe, Sacha. - falou o potro.
- E qual o seu nome, velho homem? O que faz, ao mergulhar a cabeça no riacho? - acrescentou Sacha.
- Meu nome não vem ao caso. Na verdade, eu nem deveria existir. Vocês, por serem jovens e bonitos, não percebem com quem falam, mas saibam que sou uma espécie de Intermediário da Morte!
- Como?! - Pataplam assustou-se - O senhor é um matador?!
- Não, filho de Pilibram. Claro que não! Mas, quando algum velho, em Uancantam, precisa morrer, venho eu até aqui, ao Riacho da Sábia Morte, para guardar nas águas toda a vida e a sabedoria desse velho.
Sacha, calada, observava o filho junto ao ancião, ouvindo a conversa.Sentia-se feliz com a beleza de Pataplam iluminada pelo sol.
O jovem potro prosseguia interrogando o velho.
- Senhor, não compreendo o que me diz. Sempre pensei que coubesse apenas a nossa Imperatriz, à Senhora da Lua, determinar o tempo de vida de todos, em Uancantam.
- Não - explicou o velho. - Em Uancantam, todos são, na verdade, eternos. Porem, quando, além de nossas fronteiras, alguém perde a esperança, um de nossos sábios acaba morrendo.
- E para onde vai toda a sua sabedoria? - perguntou Pataplam, preocupado.
- Sua sabedoria penetra nas correntes do Riacho da Sábia Morte e fica passeando em seu leito, até encontrar quem queira beber de suas águas sábias. Há sempre quem as tome. Não precisamos temer. - respondeu o velho.
- Eu não podia imaginar que houvesse sabedoria no leito de um rio! - exclamou o potro, interessado, pois que há muito desejava ser sábio feito a mãe.
- Pois creia! É assim essa verdade! - prosseguiu o ancião. - Mas atente para outro fato singular, terá de tomar das águas sábias somente das nascentes!
Pataplam parecia ainda mais intrigado.
- Explique-me, também por que o senhor não morre, ao afogar-se enquanto um outro velho está morrendo? - perguntou.
- É simples. Eu sou, como já disse, apenas um Intermediário da Morte. Todos os outros velhos sábios perpetuam-se, por mim, com suas sabedorias nas águas.
- Entendo. E, agora, compreendo, também, porque minha mãe sempre bebe das águas nas nascentes do rio. - comentou o jovem potro alado.
Sacha por fim falou.
- Muito bem, meu filho. Vejo que você é mesmo esperto e bom observador. Contudo, precisamos ir. Seu pai pode chegar a qualquer momento e precisamos estar juntos e com ele, quando de seu retomo.
Despediram-se do velho, que permaneceu em sua missão, mergulhando a cabeça nas águas do riacho.
Voltaram para os campos verdes da esplanada que habitavam. Lá, aguardaram Pilibram.
Já era noite, quando o Caçador de Maldades apareceu. Tinha a feição carregada e, assim, não parecia alegre.
- Querida Sacha! É duro o que tenho a lhe dizer!
- Fale, Pilibram! Não me torture com a demora de suas palavras.
- Você já sabe, Sacha, do que se trata. Chegou a hora de minha mais implacável partida... Vim apenas para avisá-la daquilo que já havia advertido e que, sem falta um dia iria acontecer.
Sem mais palavras ou explicações, Pilibram despediu-se de Sacha, que, inconformada, guardou-se num longo adeus.
Autoritário e solene, Pilibram, também se despediu do filho.
- Pataplam! Honre seu nome e saiba cumprir a missão que lhe couber. Cuide de sua mãe. Agora, ela só terá você. Eu pertenço a Uancantam e não poderei voltar, para estarmos juntos. No seu instante mais próprio, meu filho, saiba sorver das águas da sabedoria. Adeus!
Assim, Pilibram se foi de sua família, indo cumprir sua tarefa maior, inscrita em sua sina e para o que teria de abandonar os seus.
Sacha e Pataplam seguiram o vôo do Caçador de Maldades até que ele sumiu completamente, além do horizonte.
Exaustos de emoção e tristes, foram dormir.
Despertados pelo amanhã, só souberam fazer silêncio. Jamais falaram de Pilibram. Nunca mais.
Passaram-se dias e meses, com Pataplam sempre ao lado de Sacha. Vivia a confortá-la. Com ela aprendeu tudo o que podia, indo, sempre, em sua companhia, beber das águas, nas vertentes do riacho.
Certa tarde muito tranqüila, Sacha passava despreocupada pelo Vale do Susto. Lá, de repente, viu à sua frente um ser por demais estranho e apavorante. O encontro com aquele ser surpreendente foi o bastante para que Sacha deixasse a vida.
No Vale do Susto, era assim. Quem por lá se surpreendia com seus habitantes, morria.
Naquele exato momento, Pataplam voava, perseguindo do alto as corredeiras de um longo rio de águas claras e transparentes. Foi quando teve, então, uma visão aterrorizadora. Viu sua mãe caída e morta, no Vale do Susto. Voou, rápido, ao local onde Sacha morrera. Ao chegar, pousou vagaroso junto ao corpo da mãe. Sentiu Pataplam a maior das dores de toda
Uancantam. A mais cruel. A dor da perda de seu amor maior!
Chorou e chorou muito. Em meio à dor, porém, lembrou-se. Havia, ainda, uma esperança.
Um dia ouvira dizer que um morto, no Vale do Susto, podia ressuscitar, caso fosse encontrado o ser estranho que lhe causara a morte.
Pataplam não sabia por onde começar sua busca. Olhou a mãe de maneira terna. Beijou-lhe o rosto marcado pelo temor da aparição surpreendente e assassina. Em seguida, afastou-se decidido. Batendo as asas, veemente, levantou vôo.
Não muito longe do Vale do Susto, o jovem potro avistou uma figura exótica, que lhe chamou a atenção. Pousou lentamente, sem fazer alarde. Escondeu-se atrás de alguns arbustos e ficou observando o estranho ser.
Notou que, aos poucos, tudo ao redor começava a se inundar de um líquido arroxeado e gosmento. No ar, pairava um odor repugnante.
Sentiu náuseas.
Manteve, porém, firme o seu propósito de ficar por ali. Com a força de sua coragem, mostrou não temer o perigo que se avizinhava.
Pataplam logo se certificou que o líquido arroxeado que a tudo inundava, pelas redondezas, vertia de todos os poros do ser estranho e monstruoso que Investigava.
O monstro trazia na face um grande olho arregalado e roxo, por onde, também, corria, feito lágrima, a mesma gosma repugnante. Seu corpo parecia preso a um emaranhado de fios, tal qual uma grande teia de aranha, daquelas bem aterrorizantes e que só em Uancantam se podia encontrar.
O ser horrendo, contudo, sofria. E, na verdade, chorava.
Pataplam resolveu tentar aluda-lo. Já não sentia tanta náusea, com o odor do ar. Acostumara-se ao cheiro. Assim, com justo receio, dirigiu-se ao monstro.
- Estranha criatura que não conheço, como posso ajudá-la a sair do que imagino ser uma armadilha em que caiu? - perguntou o potro, aproximando-se mais um tanto do medonho ser.
O monstro, ao ouvir a voz de Pataplam, parou de chorar, deixando, também, de verter pelos poros o líquido gosmento e arroxeado que poluía os arredores.
- Quem é você, que ousa falar com o ser mais horrendo de toda Uancantam? Não sabe, por acaso, que sou o patético Claum ?
Pataplam não se deixou perder de sua coragem.
- E eu, sou Pataplam, o corcel alado, filho de Pilibram, o Caçador de Maldades - respondeu.
- Então, você é Pataplam! - exclamou Claum. - Pois fique sabendo que não estou preso em nenhuma armadilha. Eu moro aqui!
- Patético Claum, por que você está chorando? - interpelou o jovem potro.
- Eu não choro, Pataplam! Apenas descarrego minha bagagem! - respondeu o monstro, desapontando o corcel.
- Mas como? - perguntou Pataplam, um tanto receoso e bastante impressionado com o que acontecia.
- Ora! Você não percebe que estou murchando? - gritou Claum.
- Claro que sim! Vejo que você está se esvaziando - comentou Pataplam. - Mas que líquido é esse? Por que precisa carregá-lo? Para que serve essa sua gosma?
Claum nada respondeu. Na verdade, parecia cansado. O grande esforço que fazia, para descarregar todo aquele líquido roxo, sem dúvida o desgastava.
Com paciência, o potro aguardou calado o silêncio do monstro.
Aos poucos, o olhar de Claum foi-se tornando assustador. Pataplam, temeroso, pensou em partir dali, não mais Interpelando o monstro. Uma força misteriosa, contudo, alimentava sua coragem.
- Claum! - insistiu. - Sei que você não passa bem, mas preciso que esclareça algumas de minhas dúvidas. Desconfio que esse líquido roxo que vaza de você tem alguma relação com a morte de minha mãe Sacha. Você a conhece? Já se encontrou com ela alguma vez?
- Siiimmm! - respondeu Claum, vagarosamente - Claro que a conheci! Foi minha presença que a matou! Esse líquido que agora descarrego é um terrível veneno. Quando alguém não está preparado para ver o horrendo monstro que eu sou, assusta-se comigo e, logo após, sou obrigado a envenená-lo com minhas lágrimas arroxeadas. É minha sina e me sinto muito mal, por essa tragédia em minha vida. Tanto é verdade, que estou sempre procurando
esvaziar-me. Você bem sabe disso.
- Claum! Claum! Claum! - gritou Pataplam, desesperado. - Por quê?! Por que foi fazer isso, logo com Sacha?! E agora? Como poderei devolvê-la à vida?! Diz! Diz!
- Perdão, jovem Pataplam! - suplicou o monstro. - O que fiz, fiz por desgosto. Compreenda. Além disso, pouco posso ajudá-lo. Sei de um antídoto a meu veneno, mas quem o tem é uma criatura estranha, suave feito nuvem. Alguém que você deve procurar, mas não sei onde está! - disse Claum, fraco, quase dormindo.
- Não! Não durma, Claum! Ajude-me a encontrar tal ser tão suave feito nuvem! Ajude-me! - insistiu Pataplam, em prantos.
Claum, porém, já dormia profundamente. Assim restava ao potro encontrar, sozinho, o antídoto que ressuscitaria Sacha.
Mais entristecido ainda, Pataplam levantou vôo, deixando aquele lugar horrível e nauseante, indo procurar o que lhe exigia o destino.
Percorreu, assim, muitos dos lugares mais distantes de Uancantam. Esteve com sábios e adivinhos. Um destes lhe forneceu duvidosa pista. Disse-lhe que procurasse o gnomo Ungui e sua velha mulher. Talvez os dois, por serem antigos estudiosos das mais perdidas histórias, tivessem o que lhe falar, do que tanto queria saber.
Pataplam, com alguma esperança, rumou para as terras do casal de gnomos, voando tempos e mais tempos, até que, cansado e com sede, pousou junto a um riacho.
Bebeu da água nascente, saciou sua sede e prosseguiu em sua busca.
A noite já recebia o luar, quando Pataplam avistou, longe, muito longe, uma pequena casa, junto dela havendo um observatório dos céus.
Ao se aproximar, constatou que lá moravam Ungui e sua mulher.
Rapidamente, pousou junto da casa. Olhando por uma de suas janelas, viu o gnomo, como sempre, discutindo com Etel, sua esposa.
Ao perceberem a presença do jovem potro, o velho casal se calou, intrigado.
- O que deseja? - gritou Etel.
- Senhora Etel! Senhor Ungui! Não se espantem comigo! Venho em paz, pois necessito do auxilio de vocês. Sou Pataplam!
- Ora! É o filho de Pilibram, nosso Caçador de Maldades! Seja bem-vindo, meu caro! A casa é sua! Em que podemos ajudá-lo, jovem ? Diga! - falou Ungui, sorridente.
- Minha mãe, senhor, foi envenenada pelo monstro Claum! Vim até aqui, porque disseram que talvez tenham o antídoto para ressuscitá-la. - explicou o potro.
- Oh! Que horror! - gritou Etel, penalizada. - Claro que vamos atendê-lo no que deseja! Primeiro, porém, precisa comer e descansar! Trazer sossego a seu coração.
- Certo! Certo! Faça já o que lhe diz a velha! - aconselhou o gnomo. - Depois, hei de lhe passar o remédio para salvar Sacha. - completou Ungui.
Ainda que muito ansioso, Pataplam se alimentou, indo, em seguida, dormir um pouco, aceitando assim o conselho dos gnomos.
Ao acordar, viu Ungui e Etel a seu lado.
- Pronto, meu jovem! Depois de muito ler e mais ainda estudar, descobri a solução de seu problema - explicou o velho gnomo.
- Cretino! Quer dizer que foi só você quem leu? E eu? Por acaso nada fiz? - gritou Etel para o marido.
- Calma, mulher! - falou Ungui.
- Não calmo, não, que lhe ajudei, também, no auxilio a Pataplam - retrucou Etel.
- Claro que sim, senhora, eu sei - disse o jovem potro, rindo e procurando sossegar aquela discussão que se iniciava.
O casal de gnomos, então, apaziguado, explicou a Pataplam que, para ressuscitar Sacha, ele deveria ir ao encontro do ser mais amigo e mais reconfortante de toda Uancantam.
- Seu nome é Cloude. Mora no Vale da Tranqüilidade. Vá até ela e a leve até Sacha - contou Etel.
- Sem dúvida, Cloude saberá arrancar o transe de horror em que se encontra sua mãe - completou Ungui.
- Sim! Meu jovem potro! Vá até ela! E vá logo! Sem perder tempo!- insistiu a velha.
- Grato, senhores! - disse Pataplam, já levantando vôo e desaparecendo na imensidão dos céus.
- Adeus! Boa sorte, belo corcel branco! - gritaram os gnomos.
Dias e dias Pataplam voou por vales, pântanos, montanhas, nuvens coloridas. Estava exausto, mas cheio de esperanças. Não parou sequer para saciar a sede. Incansável.
Voava sob sol claro quando chegou ao Vale da Tranqüilidade. Era um lugar lindo de se ver. Deliciosamente calmo. Uma brisa pairava no ar, temperando com prazer o calor.
Pousou lento, num areal macio feito veludo. Perto, havia uma nascente, onde sossegou a sede, revigorando-se. Descansou por minutos. Logo depois, cavalgou pelas dunas claras do vale.
Sequer precisou seguir muito adiante, Imediatamente encontrando a reconfortante Cloude, pairando suave como nuvem no alto de uma pirâmide prateada.
Linda, Cloude reluzia ao sol. Pataplam voou até ela, pleno de esperanças.
- Senhora da Nuvem Suave, preciso de seu auxilio para salvar minha mãe! - suplicou o corcel.
- Quem é você, jovem alado que se dirige a mim? - perguntou Cloude, esvoaçando conforme a brisa. - Conte-me o que aconteceu a sua mãe.
- Sou Pataplam, filho de Sacha e Pilibram, o Caçador de Maldades! Disseram-me que só a senhora tem o antídoto capaz de ressuscitar minha mãe morta pelo veneno do horrendo Claum.
-Pataplam... - sussurrou Cloude, movimentando-se levemente - você precisa mesmo de mim. Sim, leve-me sem perda de tempo até onde se encontra o corpo de Sacha.
Voaram juntos ao Vale do Susto. Lá chegando, viram Sacha deitada. Morta, trazia, ainda, dura expressão de horror estampada no rosto enrugado.
Desceram. Pataplam beijou a mãe. Desesperado, começou a chorar.
Cloude, muito delicada e calma, o reconfortou.
- Pataplam, não chore. Tentarei, com meu sopro reviver Sacha. - disse Cloude, soprando brisa doce sobre a morta.
Nada aconteceu. Sacha permanecia imóvel. Cloude tentou soprar brisa mais quente. O que, também, nada resolveu. Sacha não respondia ao antídoto.
- Há quanto tempo sua mãe está assim, meu jovem? - inquiriu Cloude.
Pataplam não soube precisar.
Mais uma vez tentou Cloude, soprando, desta vez, brisa ainda mais forte.
Com a força daquele sopro, Sacha moveu-se ligeiramente, porém, não reviveu.
- Sinto, Pataplam, mas deve ter passado muito tempo, desde que por aqui passou Claum. Se meu sopro de vida não a revive, nada mais posso fazer. Imagino, também, que não foi só de susto que morreu sua mãe. Alguma força maior, com certeza, agiu contra a vida dela. - explicou Cloude.
Pataplam soluçava. Via partir sua esperança.
Não terá sido o velho do Riacho da Sabia Morte? -perguntou.
- Sim... Talvez... Quem sabe? O certo é que sua mãe era sábia, eu sei, e seu tempo de partir pode ter chegado. - consolou Cloude - Se assim for, melhor será que você leve Sacha ao riacho, deixando-a cair nas águas da sabedoria. Assim, seja forte, Pataplam, cumprindo seu destino.
O jovem corcel, silenciando seu choro, despediu-se de Cloude, agradecido e triste.
Sabia de tudo o que havia por fazer. Levou Sacha em seu lombo.
No percurso, ia, lembrando de Pllibram, seu pai. Sentia falta dele, alguém com quem poderia dividir sua dor.
Ao entardecer, chegou às margens do Riacho da Sábia Morte. Desceu ao chão o corpo de Sacha. Beijou-lhe demoradamente.
Para Pataplam tudo parecia perder o sentido, pois se sentia órfão, renegado pelo pai e abandonado pela mãe.
Repentinamente, ouviu uma estranha voz se dirigindo a ele.
- Pataplam! Pataplam!
- Não chore, Pataplam! - prosseguiu a voz. Sua mãe estará sempre por perto. Como já lhe contei antes, perpetuará em mim, com sua sabedoria nas águas!
Espantado, o jovem potro olhou para os lados, para cima, para baixo e dentro do riacho. Nada viu.
Só, pensou em voz alta:
- Percebo agora! É o ancião, o Intermediário da Morte, quem envia essa mensagem. Pobre de mim!
Enquanto se lamentava, um clarão rompeu os céus à sua frente. Vinha em sua direção. Assustado, procurou ver se o corpo de Sacha ainda estava por ali. Verificou que sim e continuou a observar aquele raio de fogo que se aproximava.
Surpreso, mas feliz, constatou que era Pilibram, seu pai, o Caçador de Maldades, quem chegava. Seu pai, que há tanto tempo não sentia por perto.
A medida que Pilibram se aproximou, o fogo tornou-se prateado. Envolto em etérea aura, Pilibram pousou diante do filho.
Soberano, o Caçador de Maldades trazia nos olhos toda a ternura e sabedoria que precisasse.
Pataplan mostrava-se deslumbrado e feliz. Não conseguia mover-se em seu êxtase, ao ver tão iluminada figura. Atento, ouviu seu pai dizer:
- Pataplam, meu filho, a sabedoria é um privilégio de poucos. A fraqueza sucumbe os jovens sem esperança.
- Meu pai, como posso ter esperanças diante da morte de meu amor maior? - perguntou Pataplam.
- Filho, entendo o quanto é dolorosa a perda de quem se ama eternamente. Eu a sinto, também. Mesmo assim, busco, bem no fundo de meu coração, e compreendo que a morte de Sacha é apenas o começo da vida. O início de nossa grande missão aqui em Uancantam. Todo amor que envolve seu coração pode ser transportado para outros seres. Não se deixe levar pelo impulso do desespero da perda do amor maior. - falou Pilibram.
E prosseguiu:
- Maior, meu filho, é a virtude, a capacidade de amar a tudo e a todos. Brevemente, você encontrará a quem há de entregar todo o seu amor.
E assim, o jovem Pataplam compreendeu o que ocorrera. Sua mãe, velha e sábia, fora morta pela falta de esperança de um ser além daquelas terras. Jamais poderia retornar à vida.
Agora, cabia a ele viver com o pai. Dedicar seus saberes e amor a todos os seres de seu mundo. Acompanhar Pilibram pelo infinito sem fronteiras, em Uancantam.

 

Música: anjopiano.mid

 

 

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