O SONHO

Ligi@Tomarchio®



Eu dormia, profundamente eu dormia. Num dado momento, acordei assustada. Abri os olhos e nada consegui ver. Tudo era escuridão e silêncio; solidão! Fechei os olhos, como se quisesse acordar novamente,e quando tive coragem de abri-los, notei uma luz que me atraía. Era fraca, penetrando por entre as cortinas esvoaçantes da janela. Olhei a meu redor e nada consegui ver, apenas aquela luz que me atraía e ao mesmo tempo me causava medo. Mais uma vez fechei os olhos. Dessa vez
apertando-os para ter certeza de estar bem acordada, e não sonhando...Eu estava realmente acordada. Conseguia ver o quarto. Estava vazio.Sem móveis. Frio. Apenas eu sobre uma cama que não era a minha. Mas ... e aquelas cortinas luminosas balançando à minha frente, me chamando ...

Consegui, então, me levantar. Curiosa e com medo aproximei-me, vagarosamente. As cortinas balançavam. E à medida que me aproximava, a luz diminuía. Cheguei junto à janela. Era uma dessas janelas baixas, com balcão dando vista para rua. E como estava deserta a rua, que frio fazia lá fora ... Hesitei. Acabei por criar coragem e pulei do balcão para rua. Percebi então a luz, novamente. Estava mais perto agora. Vinha de outra janela, aproximei-me com receio. Não que
ria ser vista. Não reconhecia aquele lugar, sei lá, estava confusa,era tudo escuro, e aquela luz ...

Mas que estranho, aquela janela era de minha casa. Da casa de meus pais, como podia ser isso! Me sentia cada vez mais confusa. Tentei olhar através da janela. Era muito alta. Apesar de tudo estar tão estranho e confuso, abandonei o medo e me dirigi até a porta da casa. Encontrava-se aberta. Entrei, e logo me senti segura. Lá estavam todos reunidos: meus avós, pais e irmãos, Pedro, Marcos e Paulo. Puxa! Não sei por que, mas como sentia saudades de todos! Tive o ímpeto de correr ao encontro de meus pais. Sentados, ao lado de meus avós, 
meus irmãos. Mais à frente, em pé, papai e mamãe. Todos se entreolhavam de quando em quando, pesarosos, tristes e cansados. Nunca os tinha visto assim e me preocupei.

Vagarosa, com certo receio, fui até eles. Pareciam
não me ver ou notar a minha presença naquela sala. Continuavam ali, nas suas posições, com seus olhos fixos e tristes. Fiquei intrigada. Perguntei ao Marcos o que acontecia e por que não me viam... Não obtive resposta.,Gritei desesperada, mas nada aconteceu.

Meus avós e irmãos se levantaram, seguindo meus pais que se dirigiram para sala de jantar. Era da janela dessa sala que vinha a luz. Uma luz fraca, trêmula ... Fui logo ver o que se passava lá. Fiquei paralisada, sem voz!... Acontecia naquele momento um velório. Eram velas a clarear a sala. Sobre a mesa de jantar estava o caixão, e , à sua volta, tios, amigos, vizinhos, enfim muita gente conhecida que nem sequer olhava para mim que chegava.

Apesar de nunca ter feito isso antes, fui espiar quem era o morto. Gritei!... Era eu quem estava lá. Eu me via morta naquele caixão, coberta de flores. Todos tristes à minha volta, me olhando, sensação horrível! ... Parecia um pesadelo. Como poderia eu estar morta, como?...Sim ...Uma alucinação!... Alucinação é o que era, alucinação ... Estou me recordando agora ... Alucinações, quantas eu tive; algumas me levaram
à lugares e situações maravilhosas, mas outras, à verdadeiros infernos de aflição. É isso! Agora me lembro ...

Foi na casa de Marta, com nossos amigos, curtindo, como sempre fazíamos. Nós nos reuníamos para nos alienar. Queríamos esquecer os problemas ... Viajávamos ... Um fuminho aqui, uma picada ali, e assim passávamos dias naquela casa ! ... E como viajávamos !... Mas... Estou me recordando de que o Tom não estava lá naqueles últimos dias... Eu andava deprimida, pois a gente se curtia muito. Acho que ele
não aguentou a barra. Eu grávida, de uns três meses,e ele...Não era o tipo para encarar tal problema ...

Mas o que foi que aconteceu. Por que eu estava lá morta, meus pais chorando ... Meu pai, sim, ele me pôs fora de casa!... Quando soube que eu estava grávida foi aquela confusão. Mamãe tentou segurar a barra, mas não adiantou, ele não se conformava de eu não saber quem era o pai de meu filho. Nossa!... Mas como poderia saber!... Naquelas festinhas da Marta, eu nem me lembro o que acontecia ... É, mas ele nunca
compreenderia mesmo. O que não diriam os amigos!

Pois é isso, eu fui morar com Marta, conheci Tom, e estava tudo bem, até que ele desapareceu. Fiquei desesperada. Nada mais me interessava. Meus pais e toda família me
desprezavam. Minha cabeça, cada vez mais confusa ... E aquelas festinhas, aquele barulho, os sonhos...Senti vontade de evaporar ...

É, eu estava morta mesmo. Uma dose excessiva fez o serviço. E agora... Será que terei paz ? ...


Ligia Scholze Borges Tomarchio

 

 

Música: Watermark, by Enya

 

 

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