O DIA E A NOITE

Ligi@Tomarchio®


Dia claro. Sol nascente no horizonte. Todos se levantam. É hora de trabalhar.
O trabalho é duro. O sol causticante. O corpo reclama. O coração chora, debulhando lágrimas nos sabugos já secos dos campos, que observo.
Moro no campo. Meu nome é Josias da Silva. Conhecido por doutor Silva, na Casa de Saúde, onde trabalho.
Para chegar a São Paulo, viajo cerca de duas horas. Durante o percurso silencioso do meu pensamento, vejo a realidade dos dias, que passam, passam... Chego na Rodoviária Tietê. Corro para fila de ônibus e continuo a observar...
Cidade grande e agitada. Trabalhadores acordam cedo. Ônibus transbordados de sonhos levam a esperança do salário a compensar a exaustão.
Sôfregas e sem alma, correm de todos os lados, pessoas diferentes e ausentes. São alienadas pelo sistema repressor e sem paga. Porém, sabemos todos que é dia. É preciso lutar com todas armas que encontramos pelo caminho pedregoso do cotidiano.
Há quem diga que o dia é só luz. No entanto, eu sei que para uma maioria é sempre escuridão...
Vejo todos os dias, na Casa de Saúde, quartos na penumbra...
Cubículos recolhem pedaços de vida, por não conseguirem suportar o sofrimento. Por não compactuarem da alienação solta e sem freio.
Tento ajudá-los. Afinal, estudo há anos para isso. Acabo por
convencer-me de que foi em vão. Nada posso eu, um simples médico, modificar na Casa de Saúde. O sistema é falho. Seus dirigentes corruptos e insensíveis. Não sei como despertá-los para a realidade daqueles seres humanos aos pedaços, em suas celas mortuárias...
Sinto-me exausto. Cansado de lutar, brigar, discursar e não ser atendido. Não desistirei. Sei que é preciso manter-se atento e instigante. Questionar e alertar a todos quanto às falhas do sistema. Talvez, agora, com a idade avançando a cada minuto, sinta-me só nesta empreitada...
Cai a noite. Despenca toda esperança e sabor de liberdade. Novamente os coletivos transbordam. Agora, não mais de sonhos e sim, carregando pesados lamentos.
- Um passinho à frente, por favor! - Alguém grita.
Todos se movimentam lentos, cansados, cabisbaixos, morrendo a
cada balanço ou freada brusca do ônibus. Chego à Rodoviária. Volto ainda mais quieto a observar...
É o retorno do trabalho! A volta aos lares, problemas, crianças... O cão que ladra. A buzina que toca implacável. O corpo que desmaia de fome. O homem que deita sem sonhos e descansa na mansidão da noite breve...
A esperança adormece com a noite. Esmorece os mais fracos. Escurece a mente e o dia!
Noto que o dia tem a luz, o sol...
À noite, a escuridão abrandada pela lua...
Resta saber, em que ponto, o Universo encontra paz entre a luz e as trevas...
Noutra ocasião contarei, quem sabe, pensamentos e visões de vida, menos mórbidas do que essa. Infelizmente, hoje, o meu dia não foi bom. Doutor Silva, como me chamam, está completamente entregue aos duendes noturnos. Estes conseguem me devolver  a energia para continuar a minha caminhada amanhã...

 

Música: Mask frame Alien

 

 

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