Zelisa Camargo

(26/07/1947 - 15/02/2007)

Saudades amiga Zel!!!

Divagar de uma alma cansada

Porque tudo tão rápido,
tão instante, profundamente distante
dos olhos que miram o vazio e a dor
do sentir uma saudade de que não sei
talvez da criança que nunca verá o sol nascer
a tarde se findar
o momento viver
as lágrimas descerem como agora
nesse momento vivenciado e sentido
por esse poema que penetrou fundo n'alma
que nem palavras tenho para dizer da dor
do momento, do instante, do nada, do vazio sentido
da dor incontida
do sol que se vai lento trazendo uma noite fria
sentida no fundo d'alma a dor da saudade de que nem sei
talvez de mim mesmo, que entre lençóis me perdi
no desamor dessa vida corrida em jornadas inúteis,
em passos lascivos caminhando estradas mil
que não a minha
em ruas descompassadas e noites pisadas ao leu
sem mesmo saber onde caminhavam nossos pés que lento
deixavam seus rastros de sangue na terra molhada por lágrimas
que desciam escondidas das faces rotas e cansadas.
Ah! momento de todo sentir onde o peito explode
em dor que não se conta
em lençóis que se amarram elos infindos
que são lembrados, rasgados e jogados ao vento do esquecimento.
Minutos... Momentos... Devaneios...
Mentes descompassadas e perdidas em doidivanos
lamentos do sol que nunca se verá
dos lençóis nos varais da vida
da vida nunca nascida
"angustia branca, solidão negra,
angustia só..."
e a criança que um dia quis brotar
em semente na terra virgem
nessa imensidão do nada se encontra
a bailar o momento só
divinamente só.
Perdidamente só
solidão branca,
angustia só...
E o tempo se foi ..

 

 Sem título

Recuso-me a deglutir esse vil fel que forçam descer
em meus lábios sedentos de amor e não de ódio
Recuso-me a viver no meio dessa torpidez,
dessas máscaras fétidas que nada querem ver
a não ser a sua própria destruição
seus rotos rostos dilacerados por chagas malditas
de um mundo onde o desamor ainda impera
e quer governar pelo lado sinistro do abandono
de sua mais sagrada essência.
Afasto-me lento , mas levando a minha postura
de guerreira que sou e não do que dizem e tentam
massacrar , mesmo sabendo que nunca irão conseguir destruir essa força nata que trago nas veias e que sempre clamou pela paz e justiça social,
pela união de todos os povos, independente de raça, cor e credo
Nunca conseguirão me vergar nem com o maior desprezo que possa existir nesse mundo caótico, principalmente nesse virtual onde´torna se fácil o não mostrar a tua verdadeira face e se esconder detrás de telas e nomes falsos.
Nada e nem ninguém irá calar minha boca, pois nasci livre e das matas sou, sou o caboclo que grita e assovia aos ventos clamando pela justiça, pela Mãe Terra que nos abençoe , mesmo estando dilacerada também por mãos humanas.
Calar.... nunca calarei diante nada e que todas as portas se fecham. sempre existira uma abertura que é a porta verdadeira, onde pessoas de quilate e personalidade forte e guerreiras carregam suas bandeiras e caminham em busca dessa tão sonhada paz que sei que existe dentro de cada ser, pois somos essência divina, mas seres ignorados, transitando nas trevas por ser mais fácil o deambular.
Vergar... nunca jamais....
Calar.... nem que tirem e lacrem minha boca, minhas mãos serão sempre livres para dizer o que minha alma canta.
Se as amarras me sufocarem um gemido suave e lento falará por mim e a expressão dos olhos dirá do amor que trago e que poucos ou quase ninguém percebeu e que aqui quis caminhar alguém que só queria mostrar o amor.
Só uma coisa a dizer.... façam o que quiserem, nunca conseguirão me atingir, pois minha carcaça é diferente.... é uma pele cansada e acostumada a ser dilacerada pelos açoites dessa humanidade que não se envergonha de se rotularem HUMANOS.

 

Vazio

De mim
do mundo
das pessoas
dos rótulos que nada dizem
dos doidivanos
dos perseguidos
das lágrimas que rolam
faces insensíveis
faces sensitivas
perdidas no vazio de si
em sua busca eterna
do completar sua unidade só
que a deambular segue caminhos
outros que não o seu
Vazio
Vazio de Deus
do Oco que gera vida
que gera a paz
essa tão sonhada paz
que do nada floresce
como uma semente jogada ao leu
e desponta do nada dando
vida ao vazio da vida
que é gerada da inutilidade
dos que caminham passos errantes
em caminhos tortuosos
deixando em cada esquina a sua
máscara fétida
suas escarras dilapidadas
no vai e vem da vida
desse jogo sutil do nada saber
e se escondendo a face verdadeira
por medo de se mostrar
que é amor
puro amor
nesse mundo vazio de seres opacos
que nada trazem dentro de si
a não ser a arrogância de nada ser
nada construírem para o amor
e sim venerar cada dia mais o desamor
o ódio implantando como larvas
malditas deixando suas marcas
em rostos rotos e enrugados pelo
descaso , pelo nada , pelo vazio
de si em sua eterna destruição
do não acordar
do não perceber que existe um sol
uma luz a brilhar
e mesmo assim continuam a perambular
no nada e no caos afundando cada vez mais na opacidade, no negrume
dos dias incontidos
das verdades isoladas e desconhecidas.
Mundo Oh! vasto mundo em que caminho me perdi que não encontro
meus pés para continuar minha jornada.
Onde encontra minhas mãos que sempre foram de ternura e hoje defensora das pedras que me atacam,
das balas perdidas que teimam em alojar nesse corpo que lento fenece,
mas que ainda insiste em sobreviver no meio de tantas guerras e injustiças.
Pai de Misericórdia
o que fazer desse vazio imperante desse mundo macabro,
onde o ódio ganha proporções animalescas
e o amor dissipa para os cantos e ventos da aragem perdida em mundos desconhecidos.
Onde encontrar o sulco que dá vida,
onde encontrar a luz que ilumina,
onde encontrar o tudo que preenche vida e retira esse imenso vazio da alma errante e perdida
Pai ! Misericórdia
nessa hora de desespero
de angustia dentro de um caos imenso
onde o cinza tinge o vazio de mim
navegando mares do nada,
do findar
no negro perfume que acalenta o tempo
tornando o inútil como o vazio que trago nesse instante de total inutilidade.
Misericórdia Pai
Retira esse vácuo que me suga
traga me a luz
traga me o meu eu que é amor
e não essa nuvem tenebrosa que impõem contra minha vontade
Vazios....
Vazios de mim
em busca do todo que sou
Misericórdia Pai
Piedade nesse momento de dor.
Acorda-me desse pesadelo onde minha alma navega os umbrais desse fétido mundo perdido do desamor
Piedade Pai
Traga-me de volta a mim
Ao meu todo que sou
Não ao nada que nunca me venceu.

 

Música: Non je ne regrette rien, de Edith Piaff

 

 

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