Tatiana Barbosa

BIOGRAFIA - Pedaço de mim


Fácil falar do mundo ao redor, estranho falar de mim. Sou gente simples. Paulista, nascida e criada na cidade sombra-luz. Tenho 29 anos sob medida e desde sempre sofro de paixonite aguda pela vida. Na minha estrada pessoal já estudei para ser arquiteta, mas fui corrompida pelo jornalismo e a possibilidade de trabalhar com a escrita. O engraçado é que mesmo formadíssima e operante levei um tempo para mergulhar de peito aberto nesse universo das palavras. O meu tempo. A carreira sempre acabou migrando para a televisão e hoje enxergo o porquê. Meu jeitão de comunicar, quer seja na escrita do papel ou da telinha, acontece quase sempre através das imagens. São elas que me conduzem.

Hoje trabalho com documentários produzidos em lugares não muito convencionais do planeta. No ano passado, dei o start em um projeto que passeia pelas almas femininas destes cantos do mundo. Chama-se Mundo Mulher. E é nele que aposto minhas fichas para os próximos tempos.

Além disso, a prática literária tem me sugado cada dia mais para o interior de um mundo vasto, misterioso e indescritível. Encontro-me apenas no início de uma jornada que pressinto não ter mais fim.

Meu perfil? Faço yoga, terapia e meditação. Precisa falar mais?

Os Mesmos Olhos


Um meio-rosto estatelado na superfície do espelho. Lábios vermelhos, pele alva, uma lágrima. Não tinha mais coragem de olhar para fora ou para dentro. Os olhos não me faziam mais sentido. Um céu de nuvens.

Não chorava por mim mesma, lamentava a indiferença. Os dias não tinham mais gosto, nem odor. Simplesmente eram.

Sim, lembrava-me da música nos ouvidos e do tempo em que as cortinas haviam sido ar. A aurora batia à janela carregada de porquês. As vozes d’alma eclodiam do peito, uma a uma.

A memória arrancou-me um sorriso. Primeiro franzi levemente a face esquerda e depois sorri. Não tinha ilusões de que aquele esboço pudesse significar felicidade. Mas causava-me um prazer sutil o sorriso.

Decidi então olhar. Primeiro assustei-me com o reflexo, depois enxerguei. Vi meus ombros frágeis, o colo magro. Mais idade do que eu sabia ter.

Num impulso, iniciei meticulosa pesquisa ao longo de mim mesma. Os mesmos azuis nos olhos que antes eram brilho. As mesmas mãos. Aquela silhueta tão minha.

Um rosto inteiro, de olhos nos olhos do espelho. Lábios vermelhos, pele alva, uma lágrima.

 

Agora

Ela se funde com o sofá vermelho, comido pelo tempo. As traças passeiam por suas bordas e meios como se nunca houvessem pertencido a outro lugar. As pontas de suas unhas descascadas brincam com um dos buracos no pano, fazendo e desfazendo movimentos circulares.

Olha fixamente para a parede. Ali, naquele obstáculo de cor nenhuma, ela encontra paz para viajar pelas traças de sua vida. E as paredes.

“Não, é só o que ouço. As portas estão fechadas. Onde estão as possibilidades para esse movimento interrompido? Como posso refazer, retransformar, fazer recaber? Só assim, poderia olhar numa direção desconhecida, tatear o que meus dedos não sabem que existe. Experimentar o estranho. Meu corpo se contorce nas ondas de uma resistência que me persegue, emite sons de um passado que antes minha razão ignorava. Até agora. Sei que esse é o instante do mergulho, da oportunidade. Se tiver coragem, estes serão o fim e o começo”.

Fechou os olhos para uma prece-sua. Como já fazia tempo não tinha religião alguma, sua maneira de rezar era muito ou quase nada particular: buscava o escuro dentro de si, percorria tranqüilamente partes do seu dentro, na tentativa de falar com Deus.

Abriu os olhos e a parede estava ainda lá. Levantou aos poucos, sentindo cada pedaço seu desgrudar do sofá, e partiu. Pra nunca mais voltar.



Mulher, Mulher

Um grito que vem do umbigo. Bem lá do meio do umbigo, daquele buraco engruvinhado, de saliências e estória. Escuridão.

O ar vai entrando devagar, enfia-se em cada dobra de dentro como se quisesse atingir as estrelas. Da cavidade.

Pincelo uma folha de papel igualmente amassada e gasta. Aguardo o não sei o quê do destino. Seria a hora mesmo de mudar uma vontade e clicar os dedos pra fazer diferente. Não quero que seja assim de repente, tudo de uma vez. A felicidade nem poderia me pegar de sopetão. Sempre aprendi comigo mesma que primeiro tem que ser triste pra depois tentar. Ser.

Mas e o grito? Acho esse um jeito meio louco de querer fazer a voz aparecer. Senti até o calor da minha barriga, o bafo quente me soprou o queixo. Acalmei quando entendi que ele só estava vindo de lá debaixo. Só isso. Quando chegou, corri botar a cabeça debaixo do travesseiro. Fiquei com vergonha. O que o marido podia pensar? E as crianças? “A mãe ficou lelé de vez, vai ver”.

Desescondi a cabeça e primeiro olhei em volta pra ver se não tinha ninguém já zombando de mim. Silêncio. Levantei num cambaleio e me debrucei sobre a mesa faz-tudo do Jorge. Tinha uma porção de folhas brancas lá em cima. Agarrei a mais amarelada pelo tempo e fiquei alguns minutos sentindo o pulso dela na minha mão. Nunca tinha tido coragem de falar alguma palavra para o papel. Sempre bisbilhotei de rabo de olho as do Jorge, acho muito bonito, mas nunca tive o impulso de inventar as minhas.

Puxei a cadeira de balanço e descobri que o braço de madeira comido pelas traças pode virar apoio, feito carteira de criança. Foi a primeira vez que prestei atenção no vai-e-vem da minha cadeira. Vai, o meu coração acelerado e angustiado por uma causa que eu não sei bem. Vem, uma vontade de chorar que não me cabe mais e que não sei como fazer passar.

Segurei o papel num agarro que só água fervendo podia soltar e escolhi a caneta vermelha, meu brinde da drogaria pelo dia das Mulheres. Sem perceber, parei de pensar e fui sendo levada pelo vai-e-vem da minha cadeira e o vazio do papel. Quando me dei de novo conta, tinha escrito somente uma palavra de ponta a ponta: MULHER. Toda em vermelho.

Um choro doído e aliviante me fez largar caneta e papel. Chorei o meu vazio e chorei aquela Mulher que pela primeira vez apareceu pra mim.

 

Música: Woman, de John Lennon

 

 

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