Ronise Fincato

Por que escrever?

Algumas pessoas simplesmente precisam.
Eu preciso. Não consigo guardar para mim todos os
sentimentos que me preenchem o peito, o pensar, o pulsar.
Não quero esquecer nenhuma emoção vivida, seja prazerosa ou
dolorida: "fotografo" meus sentimentos em versos.
Os versos de um poeta são registros de verdades muito íntimas,
subitamente expostas ao mundo. Uma vez expostas,
deixam-nos e seguem imprevistos rumos.
Por isso, às vezes dói, é penoso desnudar-se assim.

Mas quando é bom... é muito bom!

Ronise Fincato
 

Extra! Extra!

Poeta salta do décimo-quarto
andar de um soneto esquecido
e no trajeto então percorrido
sente o inverso das dores de um parto;

lembra amores (vividos, contidos)
e humores (tão mal expressados!);
lamenta seus versos rasgados
e os intactos - também nunca lidos...

roubou rimas, sugou suores,
tomou como suas alheias dores
e desacatou a poesia concreta...

não quer seu nome em praça ou em rua,
pois só conhecera os caminhos da lua
- até este encontro do chão com o poeta!

 

Inverso

Versos sem eira nem beira
à beira de um precipício;
vício da escrita incerta
- desperdício.

Versos vindos de janelas
ou ao lixo atirados
serão somente esquecidos,
não reciclados.

Versos que crescem, impetuosos,
sem ponto que os detenha...
gigantes espremidos em linhas.
Valem a pena?

Versos não param em talheres,
nem invadem os olhos do mundo...

Versos apenas brotam
em páginas
que desbotam
- gritam mudos.

Soltam-se rebeldes,
indomados,
correndo o imenso risco
de serem, para sempre,
rabiscos.

 

Sou tua

sou tua surpresa,
teu susto,
o sobressalto que te faz respirar

sou teu desafio
sem lógica,
teu vendaval particular

sou a pergunta
que temes,
porque faz tua boca calar

sou a enxada
que, ansioso,
aguardas plantado pra te arrancar

sou tua bússola doida,
que faz norte do teu sul
e sem a qual,
mesmo assim,
não podes te orientar!

 

*Poemas do livro da autora, Versos que Pulsam*

 

Música: Annie Song

 

 

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