Raymundo Silveira

Não Apaguem As Estrelas

Não apaguem as nossas estrelas.
Elas são tão poucas; roucas
(Alguns dizem que são loucas),
De tanto falarem
E poucos escutarem.

Não apaguem as nossas estrelas
Muitos dizem que são insanas;
Que são todas doidivanas,
Mas, igual a Bilac, eu as escuto
“Pálido de espanto”.

Não apaguem as nossas estrelas:
Nem nos pampas, nem em Sampa,
Nem no Rio ou São Luís
Nem em qualquer pedaço de céu
Deste grande pequeno país.

Não apaguem as nossas estrelas:
Quase ninguém mais as vê,
Pois como bem disse o poeta
Existe uma “feia fumaça”
Empenhada em apagá-las.

Não apaguem as nossas estrelas:
Hilda partiu e, portanto surgiu
Mais um astro no firmamento,
Só pra fazer muita inveja
Ao Cruzeiro do Sul.

 

 Concluindo...

 Como as águas, contornei os obstáculos;
Como o vento, atravessei todas a fendas;
Como a luz, iluminei espaços tenebrosos;
Como o ar, ocupei todos os vácuos;
Como o sol, abrasei com meu calor
Cada porção de um gélido coração.

Das vitórias (que foram poucas)
Esqueci todas as glórias;
Com as derrotas (que foram muitas)
Aprendi a suportar tormentos.
Nunca logrei esquecer as injustiças,
Mas perdoei a quem as cometeu.

Fiz da gratidão o meu legado;
Da franqueza, o meu escudo;
Da lealdade, a eterna companheira.
Dos milhares de quedas que sofri
Me levantei de todas, embora
Sem a ajuda de uma mão amiga.

Valeu a pena? Não! Acho que não!
Talvez minh’alma fosse por demais pequena.
Olho pra trás e só enxergo névoas,
Olho pra cima e só distingo trevas.
E à minha frente diviso imenso abismo
Onde mergulharei na imensidão do nada.

 

Desejo Vão

Ah, se eu pudesse
Esquecer tudo numa farra louca,
Que nunca vou poder beijar-te a boca
Dormir abraçado ao peito teu.
Ah se eu pudesse
Sorver cada líquido do teu corpo
Entrar em ti, morder-te como um louco
Canibal.
Ah se eu pudesse
Arrancar de ti meu pensamento
Ainda que fosse só por um momento
Pois nada dói mais que uma ilusão
Perdida.
Ah se eu pudesse
Sentir o calor da tua "montanha"
Beber o sumo que sai da tua entranha
(Enquanto tu também queres o meu beber),
E deglutir o "mel" do teu amor
Quando excitada tremes de prazer.
Ah se eu pudesse
Ouvir teus ais, teus gritos teus gemidos
O som mais desejado aos meus ouvidos
Muito mais que o de uma orquestra angelical.
Ah se eu pudesse
Penetrar minha carne em tua carne
Sem importar em que lugar a ponho.
Mas, ai de mim, isto é impossível: é um sonho!
Por quê? Pois ouve bem:
Porque tu és ninguém: "são todas"
E "todas", sendo tu, "não é ninguém".

 

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Música: asTimeGoesBy.mid

 

 

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