Mel  Ribeiro

Minha linda terra natal, Pará de Minas, fica incrustada nas montanhas do oeste de Minas Gerais. Entretanto, construí minha vida em Brasília -DF, pois aqui cheguei menina, em companhia de meus pais e irmãos. Sou mãe de um lindo jovem brasiliense, meu precioso erário.
Escrevia na minha adolescência, mas, o rigor de minha formação, fez com que eu recuasse. Somente, agora, com a maturidade, decidi vasculhar os meus porões, talvez buscando a mim mesma. Encontrei algumas certezas, poucas, mas valiosas. Uma delas é essa paixão desenfreada pelas palavras escritas. Estavam guardadas, bem encaixotadas e resolvi desempoeirá-las e trazê-las de volta.


Madrugadas

Madrugadas contraem o útero materno.
São filhas da noite e do dia.
O pai, parteiro experiente, apara-as radiante.
Faz isso sempre.
Apressa-se em apagar os vestígios de sangue,
Que insistem em escorrer pelo céu.
Guarda esse segredo, pois tem medo;
Pensa que podem seqüestrar os seus bebês!
As pequeninas acomodam-se em colchõezinhos.
Delicados presentes ofertados pelas nuvens.
Algumas têm a face rosada e risonha.
Outras nascem chorando, assustadas com a chuva.
As que nascem aos sábados são mais dengosas.
E as de domingo, com certeza, as mais fogosas.
No decorrer da semana, são todas nervosas.
Muito as incomoda a poluição sonora.
Foram batizadas por imponentes estrelas.
Suas protetoras e eternas guardiãs.
Ao presenciar esse belíssimo espetáculo...
Silencio-me e respeito-lhes a privacidade.
E meus olhos sorriem de felicidade.

 

Castelos de Areia

Sou a brisa que teu corpo abraça.
Carícia envolvente que te enlaça.
Chego bem cedinho.
Quando estás sozinho.
Trago comigo o cheiro das flores.
Beijo-te a face e carinhos te faço.
Dou volta no tempo...
Quando percebes, sou vento.
Ouço teu lamento.
Sopro tuas lágrimas.
Não sou mais amena.
De ti não terei pena.
Pois quando te dei amor...
Tripudiaste, me abandonaste.
Refeita, sou ventania.
Não quero mais tua companhia.
Sou irmã da tempestade.
E de ti não terei piedade.
Derrubarei teus castelos de areia.
Pois, sem teu amor, serei redemoinho.
Demolidor, arrasador, apenas dor.

 

AMOR VIRTUAL

Consultei minha bola de cristal.
Para minha surpresa, reservara-me um amor virtual.
Fiquei radiante; meu grande amor chegaria em instantes.
Rapidamente pensei, se ele é um navegante, só preciso navegar.
Era noite, estava escuro, nem me dei conta, eu juro.

Adentrei o mar e, colidi de frente com um navegador experiente.
Educado, se apresentou e desculpou-se.
Preocupado, quis saber se tudo estava bem.
Era impossível enxergá-lo no negrume da noite.

Mas conversamos bastante, foi bem interessante.
Nos despedimos com a promessa de nos reencontrarmos.
No dia seguinte, mal abri os olhos, recebi braçadas de flores.
Desde então, meus dias passaram a ter mais cores.

Não éramos exigentes; também não sentíamos ausências.
Passado algum tempo, me senti atordoada.
Iniciou-se, então, a grande confusão!
Apaixonei-me loucamente, é sério.

Não sei se pelo navegador ou pelo computador!
Só sei que estou atraída...
Preciso alongar o tempo, entender o que está acontecendo.
Meu coração está indignado, desapontado.

Fomos coagidos a aceitar a realidade.
A distância nos interditou, nos confiscou o direito de amar.
Vamos ter que abdicar?

 

Música: It's Impossible

 

 

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