Magda Almodóvar

A Rosa do Pequeno Príncipe

Um dia fui rosa,
Pétalas aveludadas,
Tom vermelho sangue,
Delicada,
Frágil, que com meus espinhos
Não me protegia.
É que cria nas pessoas,
A todos olhava sem medo
Ciente que não me machucariam.

Perfumava os lugares
Com o odor do meu sorriso.
Embelezava com doces palavras de amor,
E à noite a Deus rezava,
Dando graças à vida,
E por não ter dissabor.

Li o Pequeno Príncipe
E a rosa que ele amava,
Me imaginei...
Supus que todo homem tratava
Sua rosa com aquela devoção,
Infinda dedicação.

Gostei do jeito do Príncipe,
Por aquela rosa não me encantei.
Era arrogante,
Fazia chantagem emocional,
E com o generoso Príncipe
E seus cachos dourados,
Pouco se importava.

Cresci vendo nos homens aquele Príncipe.
Do jeito daquela rosa
Nunca me aproximei.
Acreditava que uma flor
Tem que ser sinônimo de beleza,
Exalar amor.

Dispensei a redoma de vidro,
Troquei-a por livro.
Arranquei os espinhos,
Meu Pequeno Príncipe esperei.
Ingênua não sabia dos sapos e das raposas.
Desprotegida,
Nua de defesas,
Ao amor me entreguei.

Ah! Quanto e por tão poucos me apaixonei!
No início eram príncipes
Requintados, elegantes,
Cheios de mesuras e ternuras,
Galantes,
Sedutores,
Acenando com interminável amor.

Daquela rosa menina,
Guardei algumas pétalas
Que secaram pela desilusão.
Guardo-as numa caixa
Presa com laço de fita,
E mesmo secas são bonitas,
Lembranças murchas de um sonhador.

Não me chamem de rosa!
É certo que não atenderei.
Rosa é feita de meiguice,
E hoje eu sei que é tolice
Ser meiga num mundo
Sem Príncipe,
Onde raposas espertas
Dissimulam desejos
E,
Depois de roubado o beijo,
Partem para buscar outra parreira,
E uma nova uva encontrar.

Sou Almodóvar.
Magda,
A ousada mulher
Que sempre diz
O que sente
E
Guarda da rosa
O jeito aprendiz,
E o sonho
De achar seu Príncipe certo,
E voltar a ser
Rosa,
Menina,
Crédula,
Amante,
Feliz.

16 /01/2003
12:12h

 

 Na Cama o Vazio

Ainda roupa jogada
O copo d´água na cabeceira
A caixa de incenso
O último CD que ouvimos
O Zippo que acendeu seu cigarro
O fumo Black and Mild
fazendo par com o cachimbo

De mim o cheiro
Nenhuma marca concreta
Dormi nua
Coberta de afeto

Ouço os sons que fizemos
Cheiro nosso cio no ar
Vejo marcas nos lençóis
Ainda tremo de paixão

Corro os olhos pelo quarto
Vejo o nosso retrato
Sorridentes e amantes

As pás do ventilador
Espantam minha saudade
Fazem-me ver a realidade

É um vazio profundo
Nele cabe o mundo
Que tivemos ao amar

Sobreviverei?

Não sei!

Só sei desta presença forte
Que não aceita a morte
Busca ter a sorte
De nos amarmos outra vez

15/03/2000

 

Encontrarei Minha Pasárgada

Visto-me com a amargura,
Calço a solidão tortura.
Olho no espelho e me vejo
Triste, magra, sofrendo.

Aqui nada mais tem gosto,
Nenhum perfume impregna meu corpo,
Não há corpos para abraçar.

Rodeiam-se só espectros,
Fantasmas dos que amei.
As vozes que ouço são lamentos.

Onde o sol que um dia me bronzeou?
Onde o mar azul que muito me refrescou?
Onde o homem querido
que me dizia loucuras?

As ruas estão escuras,
Nem mais pardais eu encontro.
As flores estão todas murchas,

O banco de dizer juras
Está quebrado,
O piano desafinado,
O incenso virou pó.

Preciso mudar daqui!

Quero ouvir cantoria
Na voz de um sabiá,
Colher flores no jardim,
Um lindo sorriso encontrar.

Bandeira, em Pasárgada,
Tinha Mãe d'água
Para histórias contar,
Tinha rio, bicicleta
E, de quebra , tinha o mar.

Lá tinha a mulher que desejasse
E cama para escolher.
Era amigo do rei
E como rei se sentia.

Vou voar em fantasia,
Percorrer o mundo inteiro,
E hei de achar um lugar,
Onde o amor seja rei,
A sinceridade rainha,
O desejo seja príncipe,
A fidelidade princesa.

Neste reino encantado
Serei amiga de todos:
Do rei, da rainha ,
Da plebe e do capelão.

Lá nunca terei vontade
De morrer, chorar,
Gemer ou lamentar.

Lá verei estrelas
Nos olhos do meu amado.
Em meus olhos o brilho da lua.
Juntos, céu iluminado.

Caminharemos pelo Arco Íris,
Nos banharemos em cascatas,
As sereias farão cantatas
Para dormirmos a sesta.

Mais importante porém,
Será saber que ninguém
Estará mais feliz que nós dois.

Vou me embora pra nossa Pasárgada.
Lá sou mais que rainha,
E ele é mais que um rei,
Somos amantes da vida,
Seremos mais do que eu sonhei.



*Meu Carinho em Poesia para Manuel Bandeira
que com "Pasárgada" inspirou este momento.

Magda Almodóvar
1999

 

http://www.magdaalmodovar.com

 

 

Música: inasentimentalmood.mid

 

 

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