Josemir Tadeu de Sousa

Professor de Química, Física e Biologia,
Compositor (Música e Letra), Regente de coral
e Poeta,
Josemir Tadeu de Sousa nasceu em Volta Redonda
e de lá vê o mundo e escreve.

torpe guerra civil...

Aqui se define tenho certeza,
tudo o que se desgarra da altivez,
e ganha corpo,
revestindo um pensamento solto,
inserindo-se no que se faz alimento,
e é buscado com avidez...
Aqui se faz mais que sonora,
a música do povo em qualquer tom.
Nesse subir corajoso,
que nervoso,
anseia por um querer bom,
o trabalhador em devaneio,
na bolsa do cansaço,esquece o anseio,
de ter que pensar em como comer,
no amanhã, outra vez...
E pra tristeza da burguesia,
é daqui advém os reis...

Fala-se nesse nosso Brasil,
recatado, sossegado,
como se nunca houvéssemos passeado,
pelos recantos sombrios e frios das guerras,
que segundo os incautos,
somente permeiam outras terras...

Ah, pseudos intelectos,
que cospem dejetos de forma vã e vil...
Nós Brasileiros somos
em realidade, os espectadores,
de uma contínua e diuturna guerra civil..
Somos o testemunhar de abruptos choques,
de plasmados horrores...

Portanto,
nada pra nós se faz novidade...
Nada que desemboque em natureza selvagem,
fazendo alarde,
por nós deixará de se plasmar...
Somos em realidade,
tudo o que aqui se fez aguçar,
frutos da exacerbada e mentirosa corrente,
que se situa entre o nada,
o que se promete,
e o que por certo,
jamais virá...

E não me venham com balelas,
banhadas em cores singelas,
que nos Países em guerra,
difere-se a forma de matar...

São as mesmas armas,
os mesmo estampidos,
os mesmos corpos que cimbrados,
oprimidos e feridos,
rolam pela terra,
e se fazem nus ao nosso olhar.

Ninguém me convence,
que o falar simetricamente de flores,
despejando momentos férteis,
nascentes de amores,
vá esconder as cicatrizes,
as pesadas dores,
que estão por aí,
feito pássaros sem cores,
sibilando por sobre nossas cabeças,
trazendo temores,
que por certo fazem horrorizar,
os olhos dos que vivem,
do lado de lá...
Dos que agoniados,
acreditam estar somente neles,
o dom de matar...

Nada me assusta...
Eu sei que caminho lado a lado,
com a astuta
linha que alimenta o perigo.
Ele convive comigo.
Ele convive contigo.

Pois que estamos sempre em guerra,
no racismo escondido,
no poder bandido,
do que como sina nos deixam...
Nós somos seres etéreos,
que jamais se queixam,
mas que trazem n'alma,
as marcas, as cicatrizes,
das balas ditas perdidas.
Do mergulhar nos deslizes,
que fazem-nos fora da lei...

Mas o cenário agora se abriu...
Os marginais não são,
somente negros e pobres,
eles estão também,
entre os nojentos nobres,
que assumem poderes,
e fétidos, podres,
trazem o dom de mentir,
com ilusórios dizeres,
protegidos pelos artigos,
que hoje amaldiçôo e maldigo,
muito puto por ter-lhes outorgado,
o direito de serem marginais instruídos,
esclarecidos e estudados,
que durante séculos,
aqui sobrevivem feito répteis,
fazendo fenecer o sonho dourado,
do crescer através do trabalho,
da labuta,
do ir e vir operário,
da sóbria conduta...

Por isso,
eu cuspo no rosto desses poetas boquirrotos,
que pregam,
no quadro de suas veleidades,
todo o desejo ácido e maroto,
de querer esconder as verdades,
mesmo vendo que o sonho jaz,
quase morto...

É aqui que aprendemos...
É aqui diante desses
nossos direitos decepados,
que tombamos...
Principalmente os pobres e negros,
cartas marcadas,
no vamos que vamos,
da vil mentira do que se faz maquiado,
e que denigre o que realmente,
se faz mostrado.

Se quiserem falar em guerra,
falem desse nosso amado Brasil,
um imenso torrão de terra,
onde secreta encorpa-se,
uma torpe guerra civil...

josemir (ao longo...)


 

um pulo na amplidão

Nada define,
o que sublime aponta o cime dos sonhos nossos...
Delira ser que sonha!
Mas que seu delírio, tenha a leveza dos lírios,
e seus passos sejam entremeados por pontos de luz,
onde visagens bisonhas,
põem-se e permanecem amorfas...
A conceptude do que se faz enternecer e buscar
no renascer,
os propósitos inscritos com o coração,
em lápides aurifulgentes de eterna vida,
além de nos fazer voar,
faz-nos no que é imensurável, inda poder crescer...
Jamais alheam-nos, predispõem-nos à ação,
dinamizando o que de flama põe-se a arder,
trazendo a capacidade do desejar, bem definida...

Conceituar-nos seria uma incoerência.
Um promover qualquer, escorchado e inverossímil,
que vertesse dos lugares comuns,
pois que não somos apenas "mais um"...

Um lançar-se solta na imensidão,
que acovarda os ignóbeis...
Mas que emana nos seres que se adiantam,
toda a força das vozes invisíveis,
que feito coral de anjos cantam,
escordando almas e vontades ociosas,
escorificando as estradas antes empoeiradas,
procurando escrutar o resíduo da poeira calada,
que ao espargir-se,
alguma verdade sempre deixa...
Um dizer mudo, uma queixa, uma definição,
uma "deixa"...

E assim caminham os indesatáveis conceitos...
Aqueles que entumecem-se, e deixam indícios perfeitos,
para aqueles cuja visão,
vai bem além do parco enxergar...
Assim voam os que abluídos,
procuram no cime do caminhar,
um ponto não de chegada,
mas sim uma referência pra desvendar,
a trilha que um dia,
de forma branda metafísica,
o que não se faz metódico ou finito...
Mas sim o que oraliza e faz plasmar,
aquilo que embora pra alguns não seja tangível,
pra outros se faz sempre uma estrela a brilhar...
Aquilo que não limita...
Vôo de rota infinita...
Ode de notas que vivificam uma eterna canção.
Um rastro de eterna existência...
Um pulo na amplidão...



josemir (ao longo...)


 

negro


As marcas que as correntes conceberam,
na pele sensível, luzente e negra,
dos que perceberam,
que o que se faz luz de fato,
não se aplica ao colorido da tez,
marcou numa raça,
sintomas de desgraça,
que hoje ainda perpassam,
e se alojam em um sentimento magoado...
Que infelizmente ficou feito espinho encravado,
na história que a seguir se fez...
Chamam-me tosco...
Cor de nada.
Lusco-fusco, tez embaralhada...
Enfim,
em verdade vos digo que até hoje,
o açoite se abate sobre mim,
empunhado pelas leis,
idiotas e mesquinhas,
dos pulhas que se outorgam doutos,
no resolver abjeto de podarem seres soltos,
apriosionando-os,
e liberando seres alvos e esquálidos ,
que financiam o tráfico,
e matam com frieza e sordidez.
São os chefes da banca,
os que dão aos que destrói os corpos,
a verdadeira solidez...
Dinheiro cão!
Apossaram-se de nossas fantasias,
e fizeram-nos ervas daninhas...

A beleza da negritude,
não meneia e nem se permeia,
por definição,
na cor dos olhos,
pois que na realidade,
os vultos passados,
- horizontes inda em ebulição -
trazem para os meus olhos,
uma aguçada e marcante vermelhidão.
Mas hoje minhas pernas não bestificam o meu andar...
Hoje, o que se faz biltre,
vive em meio aos abutres,
e não consegue, assim como n'alma,
levemente volitar, tendo como parceira,
a brisa calma,
que uma cor abençoada me concebe,
e agora, compreendida a questão,
pelo Pai Imenso,
graciosamente me é concedida,
orgulhosa,frondosa, protegida...
Negro sou.
Negro tu.

Algo que arrasa os racistas,
pois que não alardeio a desgraça.
Pois que não sou masoquista,
e tampouco projeto fascista,
do choramingar o que não faz por conquista,
e ao invés de questionar esses "porcos" pseudos-senhores,
vive pedinte a viver de favores.
Ser Negro,
na acepção da palavra,
reside justamente no ato,
no qual brandamente,
desprezamos as bravatas,
e adentramo-nos por mundos somente nossos.
Refúgios,
não refugos.
Negro,
que hoje advinculado,
ao que se faz sagrado,
constrói-se por si...

Luta ainda inglória,
a de constatar essa hedionda estatística,
que nos coloca como reis de forças místicas,
mas que não reproduzem em gráficos,
o número pelo menos aproximado,
dos que tombaram de forma sangrenta e covarde,
pelas inglaterras nobres e podres...
Pelas espanhas sutis e carrascas...
Pelos portugais que hoje nos sorriem,
mas que antes nos decapitavam.
Pobres reis apátridas,
que desconheciam que nossas cabeças,
-sementes que são -
reproduz-se-iam, e multiplicadas,
criariam novas legiões,
que se covarde e sutilmente fossem tombadas,
Regenerariam-se em células, refazendo-se de novo,
Força de povo,
nobreza igualada,
pois que sobreviveu,
sem comprar ninguém...
Sem se entregar ao estados "porcos"unidos.
Sem aceitar o rótulo de bandidos.
Os nossos pedaços são genes,
nacos que dão vida,
frutificam e honram a cor...
Negro,
talvez hoje admirado,
amado,
sei lá...
Mas negro, sim senhor...
Muito mais próximo ao conceito do ser humano,
do que ao do preconceito animal...
Muito mais verdadeiro e exposto,
sem se esconder sob máscaras de gestos profanos,
mas colocado e posto.
Disposto.
Mesmo que a contragosto,
- dessa minoria que há muito deixou de ser dominante -
que tentou covardemente impingir à negritude,
uma vida sórdida, insolente, pedante,
de para sempre e sempre,
esmolar...
Negro sim por que não?
Algum problema "irmão"?



josemir (ao longo...)



Nota do autor:

Em verdade não existe expresso em
números, a imensa quantidade de corpos
negros, que por esse sórdido planeta
se espalhou...
Afinal as estatísticas são afeitas e
feitas pelas raças dominantes...
Mas de qualquer forma,
seja no terra-terra, no paraíso,
na erraticidade, enfim em todos
os planos,
essa história se eternizou...
Indiferente de números,
mas simplesmente pelo dano catastrófico,
que ela por aqui deixou...

 

Música: Trecho de "Cantador Viajante", composição e
interpretação de Josemir Tadeu.

 

 

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