Ilka Vieira

Descrevo-me...
Ilka Vieira

Descrevo-me cautelosamente
em pérolas e criaturas,
lapidando-me contra amarguras,
sentenciando meus pecados,
retocando o coração desbotado.

Descrevo-me sem olvidar
como menina poeta,
resvalando pelo colorido da infância,
brincando com o que a vida me escondia,
poetando por idolatria... sem analogia.

Descrevo-me em fantasia,
descobrindo temperos da paixão,
soltando o freio,
perdendo-me em devaneio,
desprotegendo o coração.

Descrevo-me reincidente,
apostando no amor,
traçando contos de fadas,
fui embarcada,
terminei incinerada,
paisagem sem cor.

 

  *Nos deixou hoje, 23 de março de 2014, nossa querida amiga e poeta. Foi morar com as estrelas...    Deixa saudades e seu belos versos, exemplo de vida! Foi uma honra conhecê-la querida Ilka!


MATURIDADE

Amadurecer
é um acúmulo de percalços,
mas é saber dos prazeres
e apostar cada vez mais na felicidade.

É um festival de vivências...
É sentir a tempestade
e se banhar na chuva.

Amadurecer é se saber só
diante dos experimentos
e poder optar
em que estação saltar.

É ajustar o momento
sem contestar..., sem se perder
das escolhas delineadas,
tão bem guardadas
para partilhar.

Amadurecer
é provocar um encontro
cara a cara com a vida
e, sem lástimas, levar dele
a capacidade de reconstruir,
percebendo cada passo
das imperfeições.

Amadurecer é retemperar!

 

Ilka Vieira

 

 

SONHO ADIADO

Ela desce a ladeira com o filho nas costas...
Há quem pense que se contenta...
... que se anula e não sustenta
sonhos e impulsos de pecar...
... merecer e desfrutar de refletores e caviar.

Ela passa a roupa cantarolando,
espera pelo seu homem disfarçando
a tristeza e o suor.
Serve o jantar à luz puxada,
lava a louça conformada
e deita com a promessa de um afago
que o marido deixa adiado...

O jeito é acordar sem ter dormido,
esquentando a água para o café,
se fazendo cafuné
e empurrando mais um dia...
 

Ilka Vieira

 

 

Música: Amarantine, Enya

 

 

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