Fernanda Guimarães

Revelando-te em meus Braços

O frêmito do último abraço
desperta a memória do sonho.
O murmúrio da luz do sol,
o surgir tímido do azul,
no infinito que me contempla,
o canto sussurrado dos pássaros,
anunciam a dolência da manhã.
A inquietude da tua falta,
o sobressalto da tua ausência,
abrem-me a porta da saudade.

Revivo a entrega,
como se tudo fosse
mais uma vez possível:
o aventurar de todos os sorrisos,
o meu amor revelado em teu olhar,
o desnudar das minhas vontades
desdobradas por tuas mãos.
Permanece na intimidade do meu olhar,
Todas as palavras e confissões
Pronunciadas em letras de desejo.
Ainda em meus lábios, a convicção do teu nome
Silenciado na cumplicidade da noite.

Em meus olhos, o sentido claro
Daquilo que jamais me dirás.
Nem sempre o que nos habita o peito
Cabe na linguagem das letras,
Tampouco se deixa enclausurar
Na definição de qualquer palavra.
O silêncio é muitas vezes um poema...

 

Falando à um Poeta

Não mais me digas
Dos meus olhares
Que em ti habitam
Não me fales deste amor
Que me descobre em ti
Eu não saberia fingir doçuras
Aquieta os teus lábios
Que me sussurram em beijos
Cala a ânsia das tuas mãos
Que me murmuram em desejos

Eu não poderia ser a que esperas
Seria sempre nota distante
Musicalidade ausente
Da melodia que toca tua alma
Mantém-te à salvo de mim
Acautela-te das tuas fantasias
Não me premedites em teus caminhos
Teus passos não me alcançariam
Nada me peças além desta alegria
Que descortinas em meus dias
És sorriso em meus olhos
Mas eles apenas te colorem
Em matizes de amizade
Há apenas este destino possível
Acessível, tentando clarear-te a razão

Não te deixes enganar
Pelas palavras cálidas
Que sentes arderem em minhas mãos
Sei bem para quem se desdobra
Cada letra que me escapa dos dedos
O frisson, o desvario, o desatino
A geografia de todas as minhas palavras
Ignoras o universo
Em que mergulha minha vertigem
Quisera que me ouvisses
Apenas não entendes o que é óbvio
A voz de cada poema que escrevo
É apenas o silêncio transgressor
Do meu coração de poeta sonhadora...

 

Mais Que Um Poema

Não me fales de incêndios da alma,
Nem da linguagem dos amantes.
Antes, prova dos meus olhares
Do amor que só se sabe em ti.
Já me disse incontida, desmedida,
Quando sequer te percebes em mim.
Deixa que me confesse inteira,
Muito além da voz que supões.
Estou farta de emoções sussurradas
Pronunciadas no peito como cristal
Quero-te antes de qualquer palavra
Na entonação que apenas tu adivinhas

Não me digas de qualquer alvorecer
Onde não me trazes o sol, a ternura.
São teus olhos que me despertam
E me oferecem o aroma da vida.
É a doçura inquieta das tuas mãos
Néctar que veste os meus sonhos.
O dia que vejo é este em que me tomas
Quando vens antes de mim e dos sentidos
Quando me confidencias tuas saudades
E os caminhos em que me levaste
Em tuas ausências consentidas.

Não me fales de aritméticas
Dessa memória incisiva do tempo.
Meu coração desconhece algarismos
E contagens que afastam e distanciam.
Prefere-se a juntar passos, estradas
Desaprendeu dos números, da lógica
Entende-se somente em interseções
Compreende que pontos podem ser ligados
E assim, abraça-se descobrindo retas
Somando urgentes encantos e afinidades.

Não pressuponhas as rasuras de minhas dores.
Nada sabes dos abismos dos meus silêncios,
Quando o sentir é açoite pelo não expresso.
Tenho marcas palpáveis, cuja agonia e soluço
Só me sabe o escuro em que mergulho.
Apenas adentra as portas que te abro.
Anda devagar, como se deitasses em pétalas.
Não me peças para diluir na taça do impossível
Os sonhos, os desejos, os tolos tremores
Que transbordam insones em luas prateadas.
Não me ofereças o véu do comedimento
Para cobrir a alma, a carne, os sentidos

Sim, continuarei a te fazer versos,
Ainda que te conjugue imperfeitamente
Neste meu desassossego de letras,
Tropeçando em rimas, ébria de metáforas.
Mesmo que não alcance o lume dos teus sonhos,
A profundidade do que tua alma abriga,
Deixarei o eco deste amor que me guia
Na fragrância do dizer da minha poesia.
Bebo-te nesta taça até o último trago
Onde vezes te derramas quase meu...

 

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Música: Allusions pond

 

 

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