Elane Tomich

Redoma

Depois que arrumo a casa
já não me sobram asas
pra ir além da razão.
Fico à procura de espaços,
mergulho em qualquer regaço
normalmente um sofá velho
acolhedor da intenção
de não me ver no espelho
dúbia, sem interrogação.
Estética esta aventura
da ética com que trato
o esfolado do joelho.
Entro em minha redoma
quisera, falsa escultura,
num apelo de axioma
a prova de estar, que consigo,
só um eu de mim comigo,
em cristalina clausura.

 

Quem Inventou a Partida

 Quem inventou a partida,
num erro de laboratório
que fabricava esperança,
dizem que se chamava Engano.
Nunca soube que a vida
é festival de ofertórios
de mães parindo crianças
que recriam o tempo e, portanto,

quem inventou a partida
muito sabia do pranto
pouco, mas muito pouco
sabia do movimento,
do beijo que consolida
a voz que derrama o canto,
oração de prazer dos loucos
de alegria... e, por um triz de momento,

quem inventou a partida
só para dar um exemplo,
não ouviu o sabiá
cantar o amanhecer.
Mas sabia da ferida
da foice ceifando o templo,
mandando pro lado de lá
nossas razões de viver.

Quem inventou a partida
não tomou porre de amor
não comeu fruta no pé
não soube do mel nem do vinho.
Mas soube abrir feridas
no botão matando a flor
dos que ficam, a esperar até
o calor dormir sozinho.

Quem inventou a partida
errou na entrada em cena
da vida e sem propósito,
sem final já fecha o pano.
Difícil ser entendida
metade da coisa plena
onde o Engano em frio depósito
trama a dor com o Desengano.

 

Assovio no Estio

Uma precisão urgente
insiste que eu não morra agora
fugindo horizonte afora
pois uma rima à minh'espera
faz-me um pedido premente:
para que eu escave o tempo,
pare o espelho, o relógio
e decifre seu lamento ,
decodificando o amor
quebrado entre versos de ódio.
Ávida a vida esperneia
convulsiva, tensa, feroz ,
desmaia em músculos flácidos.
Na espera há um verso plácido
que de mim só rouba a voz
assovio no estio do tempo.

Seiva esticada na teia
de vida, ilusão que enleia
a trama de se fazer
o fio que indica a via
estrada de cometer
a sentença que esvazia
os pecados da poesia.

 

http://www.elanetomich.com.br

 

 

Música: Athair, by Enya

 

 

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