Carlos Leite Ribeiro

Nasceu em Lisboa, no dia 05 de março de 1937. Mora na pequena cidade da Marinha Grande (Distrito de Leiria) com cerca de 30 mil habitantes. É jornalista (da escrita e da rádio), e diz que nas horas vagas é escritor. Como escritor, tem participação na antologia Poiesis IV, da Editorial Minerva.

UM BANCO DE JARDIM

O "Tio Paulo", como em todos os dias que o tempo lhe permitia, encontrava-se sentado no seu habitual banco de jardim, a ler o jornal...

"Óh homenzinho, chegue-se um pouco para lá, para eu me poder sentar...".

O "Tio Paulo", muito surpreendido, olhou para uma jovem que estava na sua frente e pretendia partilhar consigo aquele banco de jardim.

"É para já, menina... menina quê...?".

"O meu nome é Antonieta" - respondeu-lhe a jovem desembaraçadamente, e continuou:

"olhe lá homenzinho, você por acaso não sabe de ninguém que precise de uma empregada?..."

O "Tio Paulo" voltou a encarar aquela jovem de modos e de expressões descontraídas. Já meio divertido, respondeu-lhe: "Olhe lá menina, ou não sou nenhum homenzinho - ouviu?..."

-Áh não?!... pois olhe que eu estava convencida que era!...".

Pelos vistos, a resposta fácil estava sempre na ponta da língua da jovem!

"O meu nome é Paulo, mas também me chamam "tio"..."

"E ele a dar-lhe ! olhe, se você é "tio" eu não sou sua sobrinha - ouviu ?!...".

Pela máscara facial, Antonieta notou que o velhote não tinha ficado nada agradado por aquilo que ela lhe tinha dito. Para suavizar a situação, a jovem perguntou ao "tio Paulo":

"Senhor Paulo, quer comer da minha merenda?... é chouriço e queijo que me mandaram lá da minha terra, no Minho...".

"Muito obrigado, menina Antonieta. Que lhe faça bom proveito !".

E já mais bem disposto, o "Tio Paulo" continuou: "A propósito, a Antonieta não tem emprego ?"

A jovem encarou o bondoso velhote e, com tristeza respondeu-lhe: " Presentemente não. Vim do Minho para trabalhar numa casa, mas o patrão era muito abusador. Mais parecia um polvo do que um homem. Chateei-me e dei-lhe uma "toutiçada" na cabeça e com uma mocada, deitei-lhe uma asa abaixo. Resultado, fui despedida...".

O "Tio Paulo" começou também a viver o drama da jovem.

"Olhe lá, Antonieta, então você não tem casa onde ficar enquanto não conseguir arranjar outro emprego ?...".

"Pois não tenho. Esta noite terei que ficar a dormir neste banco" - disse-lhe a jovem.

O ancião olhou para ela horrorizado, e avisou-a: "Tenha juízo, menina, pois é muito perigoso ficar aqui sozinha de noite !...".

"Eu não tenho medo e além disso, sei defender-me !" - atalhou logo a jovem.

Mas o "Tio Paulo" não se deu por vencido e continuou: " Antonieta, eu moro sozinho, sou viúvo e os meus filhos estão casados e não moram cá. Se quiser podia ir viver para minha casa...".

Não pode terminar a frase, pois logo a jovem retorquiu-lhe: "Mas você pensa que eu queria ir viver para sua casa ?!... você deve estar a pensar que eu sou...".

Ao ouvir isto, o bom velhote "atirou-se" ao ar... "Olhe, que eu não estou a pensar em ser um "polvo" como você diz que era o seu antigo patrão. Ofereço-lhe a minha casa, em troca de... de, por exemplo, de você arrumar a minha casa e de passar-me a roupa a ferro - valeu ?!...".

A jovem hesitou, mas por fim acedeu ao amável convite do bom velhote: "Está bem, aceito. Mas o "Tio Paulo" terá de tomar banho todos os dias, pois esses pés...(que cheiro!...) e tem de deixar andar agarrado a essa bengala..."

E lá foram os dois. Curiosamente, o "Tio Paulo" já não se apoiou na bengala para poder andar...

 

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Portugal

 

Música: Canção do mar

 

 

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