Cândido Matos Paiva

Biografia

Nasci algures, já nem sei bem quando,
E moro, por aqui, todos os dias.
Casei-me com as minhas fantasias
E minha profissão é de malandro.

Andei na escola quase que obrigado,
Minha vaidade queria-me doutor.
Defendi tese em coisas do amor
E para meu azar fui reprovado.

Adoro um deus vadio como eu,
Até suspeito que ele é meio ateu,
Pois nunca foi rezar na minha ermida.

Escrevo, em guardanapos de papel,
Uns versos que tresandam a bordel
E são emanações da minha vida.

Cândido, 25/11/2007

 

Guerra e Paz

O mundo é uma eterna podridão
Por que esta mente humana, poluída,
Já perdeu o respeito pela vida
E faz da guerra a sua profissão.

E quem fala de paz é quem domina,
Quem tem a pistola e o canhão,
E os desgraçados que já não têm pão,
São uma espécie abaixo de canina.

E as leis, que se produzem, vão no norte
Do beneficio injusto do mais forte,
Mas nunca será assim que a paz se alcança.

Pois nunca haverá paz neste universo,
Enquanto a lei não for um simples verso
Com palavras de amor e de esperança.

Cândido, 27/11/2007

 

O Exemplo da Cotovia

Sobe a rama das verdes melancias
Um ninho feito de coisas pequenas:
Alguns gravetos, musgo e muitas penas,
Dum bonito casal de cotovias

O pai estava sempre de vigia
E se chovia a mãe era o telhado
Para que o ninho estivesse abrigado
Desde o romper da aurora ao fim do dia

E havia tanto amor naquele ninho
Tanta dedicação tanto carinho
De dia ao sol, de noite à luz da lua!

Se o Homem imitasse a cotovia
Tenho a certeza que não haveria
Tantos filhos perdidos pela rua.

 

Meus guardanapos de papel

Ao almoço, é convosco que eu converso
E vos conto meus mais íntimos segredos,
Vos aponto a angústia dos meus medos
Espalhada, por aí, em cada verso.

É em vós que eu embalo os meus amores,
Rascunho os meus mais puros sentimentos
Ou meus loucos e lascivos pensamentos,
E Amarfanho os meus pesares e as minhas dores.

Vos rasgo nos meus momentos de loucura,
Sem respeitar a imaculada brancura,
Como se fossem uns lençóis de bordel.

Perdoai minhas sacrílegas objecções
E alguns chulos e doidos palavrões…
Meus queridos guardanapos de papel!

 

Pai por Inteiro

‘inda sou pai apenas parcialmente…
Ajudo com migalhinhas de pão
E alguns bocadinhos de educação
Meninos que são filhos de outra gente.

Mas um dia eu vou ser pai por inteiro…
Só vou precisar de usar a caneta
E escrever com a minha melhor letra
Filhos que tenho a haver no meu tinteiro.

Vou antevendo o pai que quero ser
Dos filhos que espero de merecer
Tão loucos e poetas como eu sou.

E quero ser tão pai como era o meu
Um amigo leal que Deus me deu
Um santo de quem Deus já precisou.

 

matospaiva@netcabo.pt

Portugal

 

 

Música: By Chopin

 

 

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