Atahualpa Pessoa Vianna

 

RÉQUIEM PARA A POESIA

Amigo, a poesia é estrangeira nesse País inculto !
Anda lá pelos escaninhos empoeirados do Parnaso,
náufraga de um navio veleiro de enegrecido vulto,
cujos despojos repousam em algum lugar, ao acaso.

É órfã que não te abrigo entre esse povo estulto,
vagando nos destroços da mediocridade e do atraso,
um condor que despencou do céu para um chão bruto,
uma estrela cadente que s'esboroou num campo raso !

Perderam-se as musas no turbilhão desse novo mundo,
entre as figuras que vivem as glórias de um segundo,
que se desfazem em loas turbulentas e estonteantes.

Foram os líricos vates parnasianos e condoeiros
expurgados da sociedade mercantilista dos livreiros
e dormem seus poemas nos papéis mofados das estantes.

 

CÂNTICO À LIBERDADE

Oh, amada Liberdade! Tu, que as longas asas abriste
sobre esse planeta tão tumultuado e tão triste,
num abrangente vôo sobre sangue, lágrimas e luto!
Que, simbolizando a lendária Pomba da Paz conduzias
uma mensagem de amor e união para as democracias
e da concórdia pregavas a todos o santo culto !...

Tu, ó Liberdade que vieste como uma manhã radiosa
e aos homens acenavas co a sonhada e maravilhosa
igualdade de direitos no concerto das nações !
Que mostraste aos povos desse conflitado Universo
doirados sonhos d'esperança sobre um mundo perverso,
trazendo alento aos sofridos e ansiosos corações !...

Tu, que voaste de um angustiado e sofrido Continente
destroçado por bárbaras tiranias de terror fervente
para distantes plagas carentes de Paz e de Justiça !
Que eras para todas as nações uma grande esperança,
a luz prometida por Deus, a sonhada bem-aventurança
desejo maior de uma sociedade igualitária e castiça !...

Porém os humanos não nasceram para ser libertos !
Nasceram, sim, para ser submissos ou insurretos,
para se alternarem na paz e na guerra: fogo e sonho !
Para adorarem os ídolos, sejam eles reais ou místicos,
enviados santos salvadores ou satãs apocalípticos,
uma figura dos céus ou um líder perverso e medonho !...

Por onde andarás, ó Liberdade que vi nascer e voar,
abrindo as asas promissoras por sobre todos e abraçar
as esperanças de tantos que criam numa Sociedade Livre?
Por onde andarás, ó filha dos deuses e mãe dos eleitos?
Ideal maior dos que desejam viver livres e satisfeitos?
...Ou não existes ou enganei-me eu, na visão que tive !...


 

VERSOS PARA AS MÃES


Quando lá no Calvário soergueram a cruz
e o Deus Homem nela se encontrava,
Entre a turba ignara que à sanha induz,
ajoelhada uma mulher chorava...

Quando nas catacumbas da Cidade Santa
O Filho de Deus aos céus se elevava,
(uma nova era na Terra se alevanta)
cheia de alegria uma mulher chorava...

Quando na triste sala uma criança morta,
(no branco ataúde o anjo repousava)
entre lacrimosos círios que à dor exorta,
convulsivamente uma mulher chorava...

Quando no estertor de um ventre arfante
gemidos de dor um parto suscitava,
diante do choro do nascituro infante,
de contentamento uma mulher chorava...

Quando em trêmulas mãos uma carta encerra
a terrível notícia que do "front' chegava,
(o filho querido que morreu na guerra)
em grande desespero uma mulher chorava...

Quando entre aplausos de louvor e glória
é condecorado o herói que retornava,
(o filho querido que passou à História)
de emoção e orgulho uma mulher chorava...

Num mundo repleto de tormento e de amor,
por um filho que muito ama e adora,
sentidas lágrimas de alegria ou de dor,
haverá sempre uma mulher que chora...
 

 

A PÁTRIA DOS MENINOS

Havia naquele rostinho uma expressão serena,
no sono infantil de um'alma frágil, pequena,
de onde não fugira, ainda, o amor de Deus...
Clamando pela caridade da Justiça Divina,
fluía pela face daquela desvalida menina
a pureza que só existe nos anjos dos céus...

Dormia embaixo duma marquise, na calçada fria,
exposta à brisa da noite e ao frio que fazia.

Olhei decepcionado para aquele quadro triste,
impassível, impotente, como qualquer cidadão
ante a miséria dos pobres dessa ingrata Nação
que abandona crianças à penúria que existe...

Tu, Pátria que nasceste sob a égide do Senhor,
que adotaste a cruz como sacrossanto penhor,
Por que abandonas os teus filhos pequeninos?
Lembra-te que o teu futuro está no que geraste,
que serás responsável pelos olhos que secaste,
já sem lágrimas para chorar os teus desatinos !...

 

 OS SINOS DE MACEIÓ

Ah, minha Maceió antiga, dos meus tempos de menino,
quando chamava os fiéis para a missa ou novena,
pelos sonoros acordes, a voz sagrada de um sino.
Tanto a contrita beata, como a casadoira pequena.

Iam à Senhora do Livramento levar prece ao Divino,
ou à Senhora do Rosário, a meiga virgem serena,
ou à Senhora das Graças, ofertar-lhe o santo hino,
ou, ainda, à Catedral banhada pela brisa amena.

Eu olhava, abismado, no sacrário, Jesus no Horto.
Ouvia dobres e finados anunciando ilustre morto.
Eram assim, os nossos sinos, sagrados relicários.

Enchia a cidade de repiques em dias de procissão,
tocados por competente maestro, o zeloso sacristão.
Agora, ó Senhor Deus, estão mudos nos campanários...




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Música: ETERBACH, by Altamiro Carrilho

 

 

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