Theresa  Russo

Theresa Christine F. R. Aragão Russo é aquariana, de 17/02/1959, reside em Fortaleza, no Estado do Ceará.
É Professora Universitária, Doutora em Bioquímica e Biologia Molecular.
Gosta de escrever, ouvir boa música e cinema. Suas grandes paixões são os livros e os carros.

Cientista que sente a poesia como arte do viver e que a evolução é inclinada para o despertar das palavras poéticas. Gosto de música e literatura e sou apaixonada por Augusto do Anjos. Acredito.

Theresa Russo


Rasga os céus as minhas Esperanças


Rasga os céus as minhas esperanças. Dentro delas, dentro deles, jorram anjos decadentes,caídos sólidos,depois, feitos mercúrio – liquidificados. Estes são como sonhos abortados dentro de um imenso útero de contrariedades do estado da arte de viver. Ardem os céus pelas chamas que lançaram meus olhos mudos de tanto gritarem. Ardem os céus pelos meus apelos, minhas interrogações. Jaz o tempo de cantar as canções de ninar aos adultos. Meu violão desafina a cada nota que elas emitem. Elas são tão falsas como a promessa da felicidade do viver. Que soberba loucura pensar que podemos. Bichos que comem homens,que engomam rugas em tecidos epiteliais. Bichos que produzem lixos luxuosos para resignarem-se na luxúria. Bichos que convivem placidamente com outros bichos da mesma espécie e cospem em seus cadáveres ambulantes. Eu não tenho um conceito para o respeito. Eu andei em círculos. Eu só queria que o responsável finalmente viesse colocar a casa em ordem. Eu não admito que haja um conceito para o respeito. Eu queria profetizar uma anarquia e instituí-la finalmente. Basta de ironias, basta de hipocrisias. Nós já éramos doentes. Não há medicina, não há vacinas, não há cura. Só um espetáculo de falsetes. Um primeiro ato repetitivo. Uma comédia ininterrupta. Uma sopa de excrementos. Uma afirmação sem contestação. Não há necessidade de fatos. Não necessitamos de fotos. Fotos, hoje tiramos de nossos corpos. Num narcisismo absurdamente descarado. Perfis violentados pela solidão profunda que nos aplacou, que finalmente chegou. Então saímos desesperados em busca de novos comparsas, de pedaços perdidos dos nossos eus, enquanto outros pedaços advêm de outros pedaços. E nunca mais iremos nos encontrar. Não mais sarará essa ferida infame. Não cessa o pus, não estanca o prurido, não desemboca o rio das curas. Há um oceano de clamores. Poucos abraços sinceros. Há um oceano de tentativas. Há um deserto. Há uma tristeza provinda de um fado. Não necessito de tradutores. Não há estrangeirismo nesse lirismo. Todos convergem para a necessidade de um olhar sincero. Todos convergem para a carência de uma ternura. Há uma clausula das alegrias perdidas nas cavernas do nosso platonismo. Deveria existir uma gente, uma terra. Deveria. Minha grande sacada, é que não comportamos a alegria. Há uma carência visceral da tristeza de um fado, da voz dessa mulher, para que nos percamos novamente,acaso nos encontremos. Pois, estou deveras desconfiada, que nossa evolução inclina para que nos transformemos em uma única e louca poesia de amor...

Theresa Russo

 

ROSAS GRAVITACIONAIS

É QUE NÃO POSSO
EU NÃO QUERO
EU NÃO DEVO
NÃO POSSO SER LEVE
EXISTE UMA FORÇA GRAVITACIONAL
QUE ME PRENDE A ESSA CERCA
(ESSA MINHA NATUREZA... RISOS E RISOS)
EU NÃO ACREDITO EM ROSAS
EMBORA SUSTENTE VIGAS
EU NÃO ACREDITO EM PILARES DE MADEIRA
ORA, OS CUPINS SÃO ORGÂNICOS!
EU NÃO ACREDITO EM PILARES DE FERRO
NUM MUNDO AERÓBIO... (RISOS DE SARCASMO)
NEM TODAS AS MULHERES GOSTAM DE ROSAS
EU GOSTO DE ESPINHOS DE CACTOS
PREFIRO SANGUE AO INVÉS DE ÁGUA
PREFIRO CARNE AO INVÉS DE FRUTAS
SOU FEITA DE SANGUE
SOU FEITA DE SONHOS
SOU FEITA IMPERFEITA
EU NÃO ACREDITO EM SORRISOS
CERTA FALSIDADE TEM SUAS PROSAS
TODOS QUEREM IR PARA AS RUAS
PARA AS AVENIDAS
PARA AS NOITES
TODOS QUEREM PROVOCAR
E O QUE A GENTE TEM?
INVEJA, DESEJO E ORGULHO?
RAIVA, ÓDIO E DESDÉM?
LUXÚRIA, FOME E SACANAGEM?
A GENTE TEM O QUE A GENTE TEM?
A GENTE É O QUE A GENTE É?
EU NÃO ACREDITO EM ROSAS
PERFUME E CÁLICE SÃO TEMPORAIS
OS FEDORES ME INVADEM AS NARINAS
DOS CHEIROS NÃO SONHO JAMAIS
OS CORPOS ESTÃO DESMORONANDO
O PLÁSTICO É MUITO CRUEL
ROSTOS DE SOMBRAS E RISCOS
SILHUETAS DE FIBRAS E PAPEL
EU NÃO ACREDITO NAS FLORES
NEM NO VÔO DO CARCARÁ
AS FLORES SÃO PRESAS DE TÚMULOS
CARACARÁ PEGA MATA E COME
SEU VÔO É DEMASIADAMENTE LIVRE
PRO OBJETIVO DA MORTE
DA MORTE PARA A VIDA
DA VIDA E DA SORTE
SÃO TODOS CRIADOS, SÃO TODOS CUIDADOS
TODOS ABANDONADOS, TODOS À SUA SORTE
TODOS SÃO AMADOS, TODOS SÃO ODIADOS
TODOS PRESAS DOS LOBOS
DOS LOBOS QUE COMEM LOBOS
TODOS BOBOS
TODOS LOBOS
E TODOS PRECISAM DE FESTAS
DE SAPATOS NOVOS
DE NOVOS SONHOS
OS SUICIDAS NÃO TROCAM AS MEIAS
TODOS CORREM TODOS CORREM.
TODOS QUEREM BRILHAR
MAS ESTRELAS NÃO MAIS EXISTEM
HÁ MUITO DEIXARAM DE BRILHAR
SOMENTE LHES RESTA UM RASTRO
UMA DOCE ILUSÃO
DO SONHO DO BRILHO
AQUELE QUE PERDEU AO NASCER
AQUELE QUE PERDEU AO ROMPER
O CORAÇÃO TENTA CAMINHAR
OS PÉS ALVORECER
A MENTE TENTA ENTENDER
A MENTE TENTA ENTENDER
COMO VÔMITOS DE CAUSAS
VÔMITOS DE COMETAS
VÔMITOS DE VERBOS
VÔMITOS DE DESEJOS
EU RECONHEÇO, EU ADMITO!
RECONHEÇAM - HABITAMOS O INFERNO
QUE PENA QUE SEUS OLHOS
NÃO POSSAM HABITAR NOS MEUS
QUE SORTE QUE MEUS OLHOS
NÃO EXISTAM NOS SEUS...
QUE GRAÇA! QUE SORTE SUA!
QUE NÃO TRANSGRIDE A MINHA!
QUE SORTE A MINHA!
QUE SORTE A MINHA!
QUE SORTE A MINHA!

Theresa Russo

 

A Dança do Chapéu

A dança do chapéu. Na rodoviária todas as lágrimas, todas as rotas, todos os retornos, todas as partidas. A dança do chapéu. Na plataforma A, uma neutralização – nem partida nem retorno, nem vôo nem estático. Neutro. Nulo. Um tempo zero. Estrada rígida, móvel imóvel. Líquido sólido, sólido líquido, amor ódio, ódio que é amor. Na estrada, pedras macias, terra endurecida, água sólida, nuvem líquida. A dança do chapéu. Na rodoviária um estado de purgatório, nem inferno nem céu, nem ida, nem vinda, estáticos, cristais de sal. A água não dilui o verbo dinamizar. Na rodoviária, um tempo zero, um igualar andanças. Tanto confiança e desconfiança na dança do chapéu. As lágrimas retidas na bica. A voz retida na clavícula. O grito contido no chapéu. A dança do chapéu. Os braços para trás, com dezenas de fraturas. As pernas em posição invertida. Os pés para trás na estrada do zero. Os olhos embutidos em cavernas de vulcões extintos. A boca soterrada na garganta do lobo. As narinas fechadas. Um breve espaço no tempo, uma lacuna, uma pinça de ácido inoxidável. A dança do chapéu. As pias de couro cabeludo e as passadeiras de sangue. A estrada da vida parte da rodoviária e os homens dançam com chapéus nas mãos...

Theresa Russo

 

Música: Ballade Nº1 in G Minor Op. 23, de Chopin

 

 

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