Sylvia  Cohin

Sylvia Cohin nasceu em Salvador, na Bahia. Do ponto de vista georesidencial, sua vida fez a rota Bahia - Rio - Brasília - Rio - Bahia - Portugal. Depois de alguns anos em terras lusitanas, volta ao Brasil, que é onde agora reside, sabendo-se mais brasileira do que nunca. De modo despretensioso, porém compulsivo, sempre teve que escrever, porque, como diz ela mesma: "A meu ver, quem escreve, descreve e sente." Entretanto, por reconhecer que a literatura no Brasil é coisa da alma e não da conta bancária, Sylvia dedicou-se tanto a atividades empresariais quanto aos afazeres literários.

Conhecendo a vida como conhece, safou-se de ver estrela onde havia um urubu, e de ver urubu onde havia uma estrela. Realista, abriu uma só janela para o raro e o trivial, o poético e o prosaico, o grandioso e o mesquinho, assim produzindo versos cujo valor ela própria parece não aquilatar. Mulher de caráter, fascinada pela diversidade dos seres humanos, baiana universal, de aguda sensibilidade, Sylvia é talento que se desenvolveu, é habilidade no debulhar dos seus sentimentos. Dos seus, e dos nossos.

Ana Suzuki

* Ana Suzuki é romancista, cronista, haicaísta e autora de infanto-juvenis.
Membro da Academia Campinense de Letras - São Paulo, com muitos livros publicados e prêmios recebidos.

 

A VESTE PREFERIDA


Debruço na janela e espreito a Vida
Envolta na cortina do Presente;
Em vão me esforço mas vejo somente,
A névoa que é sua veste preferida.

Frustrada, sopra a brisa intrometida,
As franjas dessa roupa languescente
Que cerca de mistério tão frequente,
Essa visão futura pretendida...

A Vida segue alheia, causticante,
E esboça um vulto de vago semblante:
Sou eu. A destemida tecelã

Que diante da vigília sem proveito,
A destorcer as fibras do meu peito,
Avanço, e teço a veste do Amanhã.

Sylvia Cohin
Portugal, 22.07.2007

 

APELO AO VENTO...

Vento que assopra, não tens rumo certo
Embaralhando as Páginas da Vida?
Trazes de longe... pra doer tão perto
E revolver a dor de uma ferida!

Vento que agita em cada arremetida,
Que em remoinho pelo céu aberto
Amassa a folha qu'inda não foi lida
E em espiral se perde no deserto...

Tem calma, vento, sopra evanescente!
Deixa que o Livro à Vida se revele,
Como a chuva fecunda uma semente.

Eu sei que o Renascer à dor impele!
Que seja manso o parto e tão somente,
Sopro de brisa a me roçar a pele.

Sylvia Cohin
Brasil - 25.11.2008

 

OS OLHOS QUE TENHO

Eu tenho um olho que é cego,
o outro enxerga demais;
De vez em quando me pego
entre visões cruciais

Meu Olho Cego e vidrado
por trás de seu véu escuso,
é censor dissimulado,
sempre a postos, "eu acuso" !

Já meu Olho-de-Poeta
com seu nácar perolado,
é remanso que aquieta
o temor de ser julgado

Com dois olhos tão opostos,
eu comigo me consterno:
Subo a um céu de muitos gostos,
Desço ao fogo do inferno!

E ao sabor deles que dançam
- entre o prumo e a revelia -
esses meus olhos me cansam...
e o meu ego, em tropelia...

Aquieta-te, Olho Cego!
Abaixa o teu dedo em riste
que eu sou Poeta e não nego:
Desdenho tudo que viste!

Sylvia Cohin
Brasil, 20.04.2009

 

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