Helenita Scherma


Profissão: psicóloga,especializada em psicoterapia cognitiva e psicoterapia sistêmica familiar.
Membro da Academia Jacarehyense de Letras

Sempre tive um grande interesse nas diferentes emoções e comportamentos do ser humano, tentando traduzi-los, ainda muito nova.
Com isto, passei a ler e apreciar autores como J.G. de Araújo Jorge, Pablo Neruda, Vinícius de Moraes, etc.. Comecei a escrever aos doze anos, quando compus meu primeiro soneto, fazendo disto um hábito, daí para a frente, embora somente agora tenha pensado em publicá-los.
Nasci e sempre vivi numa cidade do interior de São Paulo, Jacareí, localizada, privilegiadamente, próxima a capital e a São José dos Campos. De modo que posso usufruir de ambas, sem deixar de desfrutar das características ainda interioranas de minha cidade, onde ainda posso caminhar a pé todos os dias, encontrando pessoas e passando por lugares que fizeram parte da minha infância e adolescência, me trazendo, portanto, a oportunidade de rever minha criança interna e meus devaneios de crescimento, nesses encontros tão ricos de lembranças.
Jacareí ainda não perdeu sua própria cultura pela vinda em massa de pessoas atraídas pelo progresso das cidades mais desenvolvidas, que trazem o caos e o anonimato como conseqüência. E é aí que mora o seu encanto.
Faço parte da Academia Jacarehyense de Letras, através da qual tenho a oportunidade de contribuir para o interesse das pessoas pela literatura, que nos proporciona viagens internas onde podemos tomar contato com os sentimentos mais profundos do ser humano. Acredito que através dos versos, podemos refinar nossa sensibilidade e tornar mais suave nosso caminho, não permitindo que morram os sonhos e o encantamento que a vida nos traz e que, tantas vezes, não se percebe, por estar focado apenas na prática imediata e crua das realizações. Escrever, ou ao menos ler e apreciar sonetos, poemas e afins, nos faz entender que nossa natureza é muito mais profunda do que supomos, que somos muito maiores do que sabemos e que temos muito, mas muito mesmo, para desfrutar dentro de nós mesmos - e que isto nos faz olhar para o mundo e para as pessoas de uma maneira toda especial, na plenitude do seu ser, dentro do ilimitado mundo de emoções com que Deus nos presenteou.
Escrever, para mim, é uma necessidade. É o meu jeito de chorar, de amar, de recordar, de desejar e de agradecer.

Helenita Scherma

PARTINDO

É hora de partir, amigo! Eu não sustento
mais, no meu peito, esta agonia...
O teu amor foi qual bandeira fugidia,
que me acenou um triste adeus, levado ao vento!

Sinto ainda o cheiro de aurora e maresia...
e as gaivotas do porto, no meu pensamento,
batem asas de sonho, num deslumbramento
que, pouco a pouco, de mim, se distancia...

No meu corpo existe, ainda, o teu desfraldar!
E a leve sensação de luz, me inebriando,
cultiva, em minha pele, algas e raízes.

E é por isto que solto o meu navio ao mar!
E que te deixo assim, sozinho, me acenando
o Adeus que, em si, existe... mas que nunca dizes...

Helenita Scherma

 

SOLIDÃO

Um frio intenso.Um vento forte. O céu escuro.
Não há lua.
Um pio de coruja. Um gato em cima do muro.
Um deserto de passos, na rua.
Saudade. Um riso. Uma taça.
A badalada insistente
Mostrando que o tempo passa.
A mão esquerda no bolso. Encapotado.
A alma nua...
Das narinas,a espiral de fumaça
Forma uma névoa etérea.
Parado.
Silente.
Semblante magro, amassado,
Expressão séria.
Feito um mastro inanimado.
Ereto, altivo, calado.
Ali continua.
Sem cérebro. Só coração.
O sangue corre gelado,
Sem pulsação.
Solidão.

Helenita Scherma
(10/09/07)


ROCHA

Hoje me sinto dura,
áspera e pontiaguda
como uma rocha
onde as lembranças batem feito ondas,
na tormenta,
arrebentando, barulhentas,
as dores do coração.
Sinto estilhaços de emoções
se desprenderem de mim,
como arrancados pelo açoite,
nesta longa noite,
sem vontade própria...
O limbo do tempo cobre minha saudade
e invade meu ser,
deformando a feição
de uma grande paixão
que eu não devia ter...
Em que momento, meu Deus,
em que momento,
nós nos perdemos
e nos desprendemos?
Talvez ontem, talvez nunca,
por certo sempre...
já que não sobrevivemos.
Menos que náufragos,
não te vi afundar no mar profundo
do esquecimento,
mas me mantive firme,
às mãos do vento, sob a negra abóbada
que envolve o mundo
e que testemunhou minha vigília constante,
a cada instante,
a cada segundo!
Em pé, entre o seguro e o louco,
vou pouco a pouco
sucumbindo à erosão...
Quantos milhões de dias
estarei inda aqui, destino de perpetuação,
entregue à tatuagem a frio
que a natureza da minha essência
me expõe?
Uma rocha. Sombria. Escura. Fria.
Só eu sei do meu medo.
Só eu sei o segredo
e a dor da minha solidão.

Helenita Scherma
(12/08/2006)

terapiacognitiva@globo.com

 

Música: Rose, by Ernesto Cortazar

 

 

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