Célia  Jardim


Nasci na cidade de Matutina, interior do Estado de Minas Gerais e resido atualmente na capital, Belo Horizonte, onde estou há mais de trinta anos.
Não tenho muito a falar sobre mim.
Tive uma vida modesta, principalmente na infância e juventude, onde carregar balaios e mais balaios de banana para vender e ganhar um trocadinho, era motivo de alegria.
Sempre encontrava um jeito de ganhar algum, quebrando castanhas, catando sobras de feijão nas roças... O importante era ter um dinheirinho na mão e pensar, este é meu.
Meu pai (in memorian) era marceneiro e minha mãe o ajudava nas despesas, fazendo quitandas, que eu também vendia durante o meu recreio no colégio.
Foi uma vida de lutas, mas também de muitas bênçãos e eu não sinto vergonha em recordar e falar do meu passado, pois foi nele que eu aprendi desde cedo a valorizar cada pequena conquista.
Aos 21 anos me mudei para a capital, fiz concurso público e trabalhei na Caixa do Estado (Minascaixa) e posteriormente na Secretaria da Fazenda, onde me aposentei.
Tenho hoje 53 anos, duas filhas.
Desde criança gostava de poesias e sempre que havia alguma festividade na cidade ou na escola, eu era convidada a recitar alguma.
Na juventude eu comecei a escrevê-las, mas com o tempo ela foi se distanciando de mim e só há aproximadamente cinco anos, ela se manifestou novamente e comecei a guardar o que escrevia.
Meus versos não possuem palavras difíceis, não porque eu não as aprecie, mas porque meu dicionário é restrito mesmo!
Em resumo, hoje eu preciso me alimentar de poesia, tanto quanto necessito do meu arroz com feijão, porque é ela que me tem alimentado a emoção!
Minha biografia é pobre de dados, mas me sinto rica com meus guardados!

Célia Jardim

BARCO PERDIDO

Não culpes a distância pelo teu esquecimento
não queiras justificar a tua ausência assim
eu te fiz presente em cada pensamento
porque não me guardastes assim

Quando a saudade me apertava o peito
eu te sonhava e te fazia presente
podia me sentir junto a ti no teu leito
ainda que em sonhos somente

Atravessava os mares de saudade
que me separavam de ti
e aportava no cais da minha felicidade
sem precisar sair daqui

Não, não foi a distância que apagou o teu amor
ela não teria poder para tanto
eu bem sei, sinto na minha dor
esquecestes-me, porque não me amastes quanto

Hoje eu deixo o meu barco a revelia
quem sabe ele te encontre em algum lugar
e sentindo a minha saudade por companhia
possas nele desejar voltar

Célia Jardim

 

AH! SE EU TIVESSE TEMPO

Ah! Tempo que não passa
que me deixa em agonia
por que tanta demora

Ah! Tempo que não pára
que leva os meus dias
leva as minhas horas

Ah! Tempo que voou
que eu não vi passar
por que fostes embora

Ah! Tempo que não dá tempo
se eu tivesse tempo
não o perderia agora

Célia Jardim

 

DÁ-ME O SEU AMOR

Foi por amor que eu fiquei assim
tão pobre e tão carente
eu que sempre fui independente
chego a ter pena de mim

Eu me acostumei a ter tudo o que eu quis
mas tem coisas que não se pode comprar
o que é que eu faço agora para ser feliz
se o seu coração eu não ganhar

Se precisar pedir eu peço
se você quiser até imploro
mas você precisa ficar comigo

Pois meu amor eu te adoro
sou um pobre ser apaixonado e confesso
por sua causa já me sinto um mendigo

Célia Jardim

 

DIO COME TI AMO

Quem me dera, quem me dera
em teus braços para sempre ficar
dançando, dançando, te sentindo
e ao som desta melodia
o paraíso redescobrindo

Teu rosto colado ao meu
corações batendo juntinhos
perdendo a noção do tempo
embriagada pelos teus carinhos
sem desejar outro momento

Quem me dera não tivesse fim
que a música não parasse de tocar
para que nem por um segundo
dos teus braços precisasse me afastar

Que importa tudo lá fora
as ilusões, os sonhos e tudo o mais
se revivo momentos de um outrora
incompreendido por todos os mortais

Que o relógio não se apresse
quando pelo eterno eu reclamo
para guardar a eternidade deste momento
e em silêncio poder te dizer
Dio Come Ti amo!

Célia Jardim

 

DOCE ILUSÃO

Ainda bem que a ilusão tem passos lentos
não acompanha o tempo no seu tempo
e quando já não nos resta muito tempo
ainda temos a ilusão

Para alimentar os nossos dias
para nos fazer acreditar
que ainda temos tempo
pelo menos pra sonhar

E sonhando vamos vivendo
já não mais contando o tempo
pois o tempo de sonhar
já não conta muito tempo

Célia Jardim

 

É ISTO

Recordar-te é engolir a saudade
omitir o desejo e a ansiedade
sonhar os sonhos já perdidos
esquecer a tal felicidade

Não esperar pelo amanhã
esquecer os planos feitos
lembrando o que foi desfeito
ignorar o passar das horas vãs

Recordar-te é parar no tempo
vivendo apenas do passado
matar a saudade com a lágrima
abraçar o silêncio com a dor

Recordar-te é perder a ilusão
tentar sobreviver da lembrança
lavar a alma com o pranto
olhar o vazio cheio de solidão

Mas, recordar-te é o que me alivia
alimenta minhas noites vazias
e assim, dia após dia, sobrevivo
fazendo da minha própria dor, meu lenitivo

Célia Jardim

 

BEM GUIADA

Não, não sinta remorso nem pena de mim
por me teres abandonado assim
a voar sem destino feito um passarinho
quando lhe roubam o seu ninho

Não, não me trates com compaixão
não me faças sentir pequena
não me leves também a razão
deixando em mim o sentimento de pena

Restam ainda as minhas próprias asas
com feridas, mas ainda sabem voar
e por mais que a dor queime em brasas
sei que um dia elas irão cicatrizar

Eu não nasci presa as tuas
e sempre pude encontrar o meu ninho
tenho a força para que nada me destrua
seguirei confiante o meu caminho

Vá, não fiques olhando para trás
segue tranqüilo os passos teus
eu estarei bem, sei que sou capaz
antes de ti, eu já era guiada por Deus


Célia Jardim

 

OBRIGADA MEU AMOR

Agradeço-te...
Por deixar comigo tantas lembranças
por ter-me feito tanto bem
hoje eu posso ainda te sentir
pelo muito que deixastes aqui

O gosto da tua boca
o calor do teu abraço
o perfume das tuas mãos
a lisura dos teus atos

Obrigada meu amor
por ter-me amado um dia de forma igual
fazendo-me sentir
a pessoa mais especial

Obrigada meu amor
hoje sei que não mais me amas
mas isto não diminui
o que fizestes tempos atrás

Nada posso cobrar-te
deste-me tudo que eu quis
enquanto me amastes
fui a pessoa mais feliz

E hoje eu te recordo
com um carinho sem fim
serás sempre o meu maior amor
obrigada, por ter ficado tanto em mim

Deixar de amar alguém não é defeito
ainda que fosse, quem ama perdoa
como querer-te mal se deixastes em meu peito
somente coisas boas

Guardo-te com todo meu amor
como se guarda o mais raro troféu
fostes o que eu poderia conquistar de maior valor
o meu prêmio vindo lá do céu

Célia Jardim


QUE SAUDADE É ESTA

Que saudade é esta que me invade agora,
em que me apoio em minha janela vencida,
parecendo ouvir uma música de outrora,
que no passado marcou tanto a minha vida?

Imagens, cenas, um perfume que não se afasta,
volteiam em minha mente de repente,
devo estar sonhando, isto explica,
esta saudade que me arrasta!

Mas que sonho é este que me leva ao distante,
trazendo-me recordações, desejos verdadeiros,
lentamente voltando o relógio do tempo,
sem que eu possa fazer parar os ponteiros!

Sinto um nó me espreitando o peito,
como se uma voz ao longe me chamasse,
uma sensação de presença,
num vento que suavemente, sopra a minha face!

Mas que dor é esta que me aperta a alma?
Dói... Eu sinto que dói!
Não, não estou sonhando!

Dói a alma, o peito, dói a vida!
Quanto tempo eu vivi sem me dar conta,
que eu não vivo, eu existo há anos,
e esta saudade, apenas chora os meus enganos!

Célia Jardim

http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=1792

 

Música: Saudade, by Demis Russos

 

 

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