Alfred’ Moraes

Alfred’ Moraes, natural de Abaetetuba – (PA) - é Poeta Compositor e Escritor. Em Belém, teve suas primeiras poesias publicadas no Jornal “O Liberal” nos anos oitenta, na coluna “Janela da Poesia.” Já participou de eventos literários e musicais nos estados do Pará, Amapá, Amazonas, Maranhão, Bahia, Minas Gerais, Paraná, Espírito Santo, São Paulo e em Portugal, tendo sido premiado por várias oportunidades. Possui mais de trinta composições gravadas e várias obras literárias, entre poemas e cordéis, publicados em antologias e ambientes virtuais. É membro do Movimento Literário Extremo Norte.

 

QUERERES


Quero voar... Voar... Não o vôo do bacurau,
Que em breve semicírculo,
Cruza tão somente a curva do caminho.
Quero voar e planar... Feito condor da Patagônia,
Que zomba da imponência
Dos penhascos escarpados
E em suas encostas, encrava o ninho.
Quero nadar... Nadar... Não o nado caudaloso
Do cachalote gigante
Que atravessam a vastidão dos oceanos,
Tal qual submarino de brinquedo,
Cruzando piscinas azuis
Movido a portentosas barbatanas.
Quero nadar e saltitar,
Feito o curimatã prateado,
Escalando as íngremes corredeiras,
Em cíclicas piracemas, zig-zagueando lépido,
Por entre pontiagudos bicos e venenosas zarabatanas.
Quero correr... Correr...
Não a correria do guepardo faminto
Perseguindo a desgarrada gazela,
Onde morte e vida confundem-se
No artigo primeiro da lei da selva.
Quero correr... Subir em árvores...
Escalar muros... Invadir quintais,
Feito menino de rua correndo atrás da pipa,
Que china mansamente
No chão das tardes de verão,
Como um anjo colorido, de papel
A implorar das alturas:
“Apare-me, meu pequeno herói,
Não me deixe tocar o chão,
Posso quebrar minhas asas!”


FELINA

Toque de leve em minh’alma,
Sem que o meu corpo perceba.
Talvez me livre do trauma
Que me consome o sonhar.
Cante uma doce cantiga
Mas, por favor, não me siga,
Posso levar-te comigo
Pros recônditos sombrios
Dos meus pesadelos,
E nestes desvarios
Não encontrarias o caminho de volta.
Confuso, em veredas obscuras,
Te perderia no limbo, que separa
A tua lucidez das minhas loucuras.
Sopre de leve meu rosto
Sem que minha alma perceba
Talvez respire o teu gosto infestando no ar.
Mas, não me beije o pescoço,
Que hoje sou um poço
De estranhos desejos, a queimar.
O fogo de minha paixão
Fatalmente te consumiria
E quem assumiria a culpa, eu ou a fera?
Sim... Pode despertar o instinto da fera
E a fera é a fêmea;
A fêmea, o fogo
E o fogo te queima,
Por favor, não teima
Em tocar meu corpo.

 

ORBÍVAGO

Não sei de onde venho,
Se, do nada absoluto
Ou do Big-bang abnício.
Sou um pífio grão de existência,
Rodopiando em elipse.
Comecei-me em ti,
Inventei-me lua,
Orbitei teu sol,
Transladei-me perdido em teu eclipse
Sugando, dos néons, a florescência.
Quando partiste, inebriada por quasares,
Eu também parti, mas, em pedaços,
Por entre brumas cósmicas vaguei,
Orbívago asteróide, em vãos espaços.
Na escuridão dos meus dias,
Vislumbrei teus lumes cintilantes
Na galáxia de minhas recordações,
Capturei uma réstia de tua luz.
Eis-me aqui, reaquecido, radiante.
Fiz-me estrela, em teu ser.
Sem conter-me, porém, dentro do meu nada,
Explodi, inexoravelmente,
BRRRRRRUUUUUUMMMMMM!
Do caos, refiz meu universo,
Mas, não sei pra onde me expandir.

 

ALMAS EM FUGA

Estrada de gelo, charrete de fogo, cavalos alados,
Poeira de estrelas cadentes
São rastros fugazes,
Nos túneis luzentes
Que levam aos confins das galáxias.

Viveiro de gente, aquário de gases, gaiola de loucos,
Pedaços de infernos na terra
São templos vermelhos
Dos deuses da guerra,
Nos campos de grama farpada.

Bandeira de letras, canhão de palavras, trincheira de verbos,
São regras de frágeis cristais,
Dispostos em fila,
Na beira do cais
Do porto das pedras aladas.

Banzeiro de bruma, veleiro de vidro, lufada de pedras,
Pedaços de luz flutuando
São icebergs de sonhos
Montanhas, boiando
Nos mares, em chamas, dos mundos.

Tapete de nuvens, pantufas de plumas, brancura de neve,
São túneis repletos de auras
De Almas em Fuga
Deixando seus corpos
Marcados de rugas,
Nas outonais estações da existência.

 

ALMA FEMININA

Vestes túnicas de vidro,
Redoma e flor,
Anjo atrevido,
Intangível aura.

Calças pantufas de nuvens,
Leveza e névoa,
Vestal helênica.
Inefável gueixa.
Insustentável leveza do ser
Do que é ser irreal
Como um céu de algodão no natal,
Muito além da invenção do prazer.

Sugas néctar de lua,
Límpida doçura,
Ninfa selênica,
Inominável deusa.

Tanges sino de cristal,
Suave e cândida,
Noviça lânguida,
Idílica musa.

Dedilhas cítara de estrelas
Com lumes fúlgidos de música,
Inimitável diva.

Despes sorrisos de rubis
Púrpuro fetiche
Indescritível fada.

Untas os lábios de ametistas,
Volúpia violeta,
Irresistível criatura.
Insustentável beleza do ser
Do que é ser irreal
Como Vênus em traje vestal
Muito além da invenção do pudor.
Alma Feminina... Mulher...

 

 

Música: Now Weare Free, by Enya

 

 

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