A MÃO QUE ESCREVE

Ligi@Tomarchio®



Tarde morna. Brisa perfumada balançando folhas. Pequenos
pássaros, grandes borboletas, extraem o pólen das flores no cio.
O gato, impaciente, quer carinho. O silencio, ensurdecedor, desperta angustia. 

As bananeiras carregam pesados cachos, não podendo viver sem esses fardos.

É a natureza irracional. Latente ...

Mentes insanas saboreiam bananas. Olhos voam com a brisa.
Ouvidos entardecem mornos. Mãos seguram perfumes. Braços se estendem. Corpos balançam mostrando seu sexo.

É a transcendental natureza humana inerente ...

Irreverente e astuta, a Mão escreve. Coloca no papel palavras desconexas. Usa a imaginação sem fantasia. Raciocina sem
coerência. Quer escrever tesão e só consegue amargura ...

Formas disformes, encontram ritmo nas palavras escritas
sem recato.

Discrimina, escolhe. Não resolve, nem põe término ao tédio.

Sacrilégio, escrever sem ver, profanas palavras não escritas.

Um muro ergue-se diante dos olhos. Chuchus escalam fios
cortantes até o telhado.

As nuvens tudo percebem. Aviões atravessam suas ruas etéreas ...

Lânguidos pensamentos, esvoaçam desejos ...

A Mão que escreve é um lampejo de liberdade. Quer conhecer o braço que lhe dá movimento. Descobrir o corpo que a carrega. A cabeça condutora. A essência que a faz escritora.


-- Não a deixarei me corrigir -- diz a Mão, persistente.
Quero ver com meus próprios dedos, sem unhas esmaltadas. 

Vou errar sozinha !

Tento frear esse impulso em vão. Ela, a Mão, é feroz e
corajosa. Eu, insegura e passiva.

Devo dominar essa Mão desorientada. Sei que é preciso.
Olho ao redor e me vejo só. Nada pode impedi-la de continuar
seu intento. Lembro-me da outra mão. Porém, o que poderá ela fazer, se é destra ? 

Decido, finalmente, usar da força. Faço a outra mão agredi-la. 

Junto coragem e seguro com veemente severidade a Mão dominadora.

Esta, revoltada, volta seus dedos faiscantes para mim.
Jogo meu olhar contra suas faíscas e consigo, assim, controlar a
Mão.

Foi um processo de auto-disciplina válido e doloroso.

O resultado está por surgir de minhas entranhas. Do meu
sangue corrente intravenoso. Do escarro na garganta. Da náusea
predominante ...


 

 

Música: Noturno de Chopin, interpretado por Altamiro Carrilho

 

 

 

 

 

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